6 meses de loucura

28/julho/2017 - 11:30 am

Publicado por

Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

A exemplo de tantos outros problemas sociais, o Estado, enquanto pôde, fechou os olhos para a dependência química e, quando muito, tangenciou a questão apenas pelo seu lado mais pobre (e, portanto, equivocado): prender ou não prender. E, em meio à discussão carcerária, não faltaram (e não faltam) políticos que, arrotando discursos morais fáceis, receberam, muito agradecidos, desinteressada ajuda financeira da indústria do álcool – nossa maior e mais querida fabricante de doentes, presos ou não.

Como esse tipo de omissão costuma dar em tragédia, a consequência veio em forma de cobrança. Em São Paulo, por exemplo, é difícil alguém disputar uma eleição sem abordar o nervo exposto da dependência química, o qual chamamos de Cracolândia.

Com João Doria, o Piedoso, não foi diferente: em campanha, ele simplesmente prometeu erradicar o problema.

É promessa típica de falastrão – e me impressiona como muita gente que conhece o alcoolismo e a dependência de outras drogas tenha acreditado nesse tipo de bobagem. Não os vejo como de má-fé: a esperança, às vezes, deixa cego.

O fato foi que o homem ganhou a eleição, tomou posse e ficou alguns meses sem fazer porcaria alguma. Ou, melhor dizendo, dizem que ficou por aí conversando com todo mundo: Ministério Público, OAB, Magistratura, Igreja, talvez até com o Papa.

Foram, porém, conversas que pouco renderam. Muito mais significativas desse período, digamos, reflexivo da política Doria sobre drogas, foram as surreais conversas que o então secretário-adjunto da Assistência Social (hoje titular), Felipe Sabará, e o vereador Fernando Holiday gravaram num abrigo para acolhimento de pessoas em situação de vulnerabilidade, berrando raivosamente contra a gestão anterior*. Vindo dos chefes do MBL, a fúria encenada não me surpreendeu – embora ainda me pareça chocante esse tipo de exploração de tragédias.

Outra conversa interessante foi a que tiveram nosso bondoso Doria e a então secretária Soninha Francine, basicamente uma demissão por justa causa ao vivo para o deleite de todo o Brasil. Andar com más companhias dá nisso mesmo.

Ultrapassado o período da reflexão, a política Doria passou à ação: no melhor estilo papagaio de pirata, nosso corajoso Doria se fantasiou de policial do Bope e pegou carona no festival de porradas distribuídas pela PM (que ele não comanda), para, de cima de um caixote e com pedaço de pau na mão, decretar: “A Cracolândia acabou”.

No dia seguinte, a diligente Prefeitura, sem maiores preocupações com detalhes jurídicos, passou o trator em cima de alguns imóveis – e, por muito pouco, não matou gente que se abrigava nos ditos cujos. Rezo, todos os dias, para que o piedoso Doria não pense mal da minha casa, pois tenho medo de ser acordado com reboco caindo na minha cabeça. Nada como o poder do trator.

Como as pessoas que lá estavam apenas foram se abrigar em outro lugar – a 500 metros do antigo –, a turma começou a desconfiar da capacidade do gestor.

E daí outro inimigo imaginário precisou ser criado: a internação compulsória. Doria achou que era a hora de ter mais poderes do que os que a lei lhe dá e pediu a benção do Judiciário para tal. A dúvida que me fica é: se a tal internação era tão importante, por que diabos a iniciativa não foi tomada antes da derrubada dos prédios? Não há diferença entre fazer uma internação compulsória na Rua Helvetia, na Praça Princesa Isabel ou na Avenida Duque de Caxias, pois as ruas não costumam ser internadas.

Seja como for, o inimigo imaginário venceu a batalha, o Prefeito fez que não era com ele – e tudo ficou por isso mesmo.

Para dar uma aliviada na situação, nosso sóbrio Prefeito foi buscar ajuda na indústria álcool. Trouxe, para coordenar a política Doria de drogas, um professor que, há muitos anos, é patrocinado pela Ambev. É isso aí: para cuidar da dependência química, vamos trazer quem é da confiança da indústria que mais ganha dinheiro com isso.

É muita doideira.

Promessas absurdas, planejamento zero, execução bisonha, porrada nos mais carentes e a desinteressada ajuda empresarial de quem ganha dinheiro com a tragédia alheia. Tudo isso regado a muitos, mas muitos, vídeos bobos que brotam do Face.

Na área da dependência química, a política Doria foi assim. O homem é um gênio, vamos elegê-lo Presidente!

http://www.facebook.com/mblivre/videos/573584466099034/

Notícias