A Cracolândia e o ovo

9/agosto/2017 - 8:33 am

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

 

Num momento de extrema fanfarronice, Doria, o candidato, prometeu que iria acabar com a Cracolândia.

Depois, num momento de extrema má-fé (e, sobretudo, de pouco caso com a inteligência alheia), Doria, o prefeito, quando confrontado com o próprio fracasso, explicou que, em verdade, o que quis dizer era, apenas, que iria deixar limpinhos dois quarteirões (como se doentes fossem coisas que precisassem ser varridas para algum outro lugar).

Hoje, após a implantação do, por assim dizer, Plano Doria sobre Drogas, vê-se que a tragédia da Cracolândia só piorou.

Em pouco mais de um mês, a concentração de doentes dobrou, muito embora sejam internados aproximadamente 12 deles por dia.

Dos que são internados (muitos, pela enésima vez), mais de 80% sequer completam a etapa inicial (repito: inicial) do tratamento.

Por outro lado, se a repressão policial de algo adiantasse, não haveria Cracolândia.

Estima-se que seu número de doentes seja próximo a 600, muito embora lá estejam, constantemente, 120 policiais militares, sem contar a guarda civil municipal e outros integrantes da PM que ali atuam em operações específicas. São 5 prisões por dia.

A Cracolândia, provavelmente, é o lugar mais bem policiado do mundo.

Não dá mais, portanto, para levar a sério certas autoridades públicas (algumas, inclusive, responsáveis pela área de saúde) que, para justificar a própria incompetência, latem por aí que o problema é de segurança.

Como desgraça pouca é bobagem, Doria, em termos de loucura, conseguiu o impossível: para coordenar um programa sobre dependência química, trouxe alguém da confiança da maior fabricante de drogas do Brasil, a Ambev.

O alcoolismo (a maior das dependências químicas, além de responsável pelo inferno vivido por grande parte dos dependentes químicos da Cracolândia) não é, não foi e não será um problema social e de saúde pública para Doria.

Na última segunda-feira, Doria recebeu uma ovada na cabeça, quando, sabe-se lá o porquê, iria ser homenageado em Salvador. A agressão é boba, injustificável e perigosa. Nem vale perder tempo dizendo que isso não deve ser feito em rinhas políticas – isso não deve ser feito em qualquer situação.

O grande ovo a cair na cabeça de Doria, no entanto, é a Cracolândia – e seu vergonhoso relacionamento com a Ambev. Aqui, não haverá guarda-chuva que o proteja – nem discurso de vítima que lhe renda aplausos para ser Presidente.

 

 

http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,mesmo-com-acoes-policiais-cresce-o-numero-de-roubos-na-regiao-da-cracolandia,70001926479

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/08/1906372-trafico-testa-policiamento-e-ensaia-retomar-acoes-na-cracolandia-de-sp.shtml

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/08/1908040-apenas-17-dos-pacientes-concluem-internacao-em-acao-anticrack-de-doria.shtml

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