A eterna herança colonial

12/junho/2017 - 6:01 pm

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Quando, mais de meio milênio atrás, os portugueses chegaram ao litoral desta terra, macularam e marcaram para sempre o nosso destino, que poderia ser inglório ou não, mas seria diferente. Quando sacaram de suas quinquilharias e começaram a fazer trocas esdrúxulas, aproveitando-se da inocência e da ingenuidade do outro, violaram com ferro e fogo nossa alma virgem.

E não venham com aquela conversa de complexo de vira-lata, ou que não devemos culpar os invasores, ficar remoendo o passado, nada disso adianta, o importante é o futuro… Não. A ideia não é colar a culpa em ninguém, é apenas uma constatação histórica que, aliás, muitos já fizeram: o modelo político, econômico e social adotado pelos invasores foi replicado ao longo dos séculos e permanece, em sua essência, inalterado, e o que é pior, arraigado em nossas entranhas.

Talvez alguém se choque também com o termo invasor em referência a Portugal. É preciso conhecer novas palavras para velhos conceitos, ou palavras velhas para conceitos novos. Os livros de História cunham “descobridores”. Mas como descobrir algo que não está encoberto? Aceitaria o termo se ele estivesse diretamente ligado às riquezas que mantiveram a Coroa Portuguesa por séculos no mesmo vício de ostentação e desprezo, sendo, portanto, descobridores da vida fácil, do famoso jeitinho português: exploração para sustentar a elite.

Um bom exemplo é o que aconteceu durante a revolução industrial. Enquanto a Inglaterra e outros países europeus descobriam, implantavam e investiam em novas formas de produção, que proporcionaram um salto no nível de vida de seus cidadãos, Portugal, como resposta, – mais uma vez na contramão da História – intensificou a exploração de matérias-primas no Brasil e na África. Lembrando que a matéria-prima da África era primordialmente seres humanos.

Qualquer semelhança com nossa realidade não é mera coincidência. Nós herdamos este sistema. Não à toa, hoje, Portugal é primo pobre das outras nações europeias. Não à toa, hoje, o Brasil e todas as suas riquezas são modelo de atraso institucional, liderando apenas estatísticas negativas em escala planetária.

A parte econômica é fácil de entender: vivemos com as sobras. Há bem acima de nós uma estrutura blindada onde habitam seres especiais que usufruem de noventa por cento da riqueza produzida. Não parece haver discrepâncias muito evidentes com os tempos da colônia. De tempos em tempos, quando somos descaradamente vilipendiados e ficamos nervosos, nos dão alguns bocados recheados com promessas e, satisfeitos e acomodados, voltamos ao nosso devido lugar. Por isso, o Brasil figura entre os países mais desiguais e com pior distribuição de renda do mundo.

Pensemos na Coroa Portuguesa, a nobre corte em seus palácios ricamente ornados e solidamente construídos. Era dela a função de administrar o país e seu povo. Sob este pretexto, toda a riqueza é para ela conduzida. Assim, os nobres distribuem o capital de acordo com o seu entendimento de necessidade. Na maioria das vezes, sua própria necessidade. Tragam este mesmo cenário para os tempos atuais, para o Brasil. Notam alguma diferença? Pois é, este pernicioso modelo precisa ser quebrado. E não há momento melhor para isso.

Vivemos o caos pleno de nossas instituições políticas e econômicas. Notamos, com pesar, que a crise que arrasou nossa frágil economia, teve como um dos fundamentos justamente a nefasta e promíscua relação entre os membros da cúpula da sociedade, tanto na esfera política quanto econômica. Os donos do dinheiro e os donos do poder vivem sob os edredons, nas alcovas mal iluminadas da República, trocando afagos na forma de malas e mochilas muito bem abastecidas.

Quis o destino que, nesses tempos de reality shows, algumas luzes e algumas câmeras conseguissem flagrar o vaivém enfadonho da propina, da prevaricação e do peculato, tornando de conhecimento popular aquilo que todo o mundo já sabia. Em horário nobre a República expôs suas vergonhas, exibindo sem pudores, em pelo, suas sobrecarnes e adiposidades, mostrando claramente que há muito excesso a ser cortado.

No próximo artigo, vamos falar um pouco mais sobre esses excessos, especialmente o inchaço do sistema partidário. Hoje, são 35 partidos oficializados e, pelo menos, outros 34 em formação, segundo o site defasado do TSE.

Antes de reforma previdenciária e trabalhista precisamos reformar nossa política. Caso contrário, os facínoras engravatados de Brasília continuarão reinando, incólumes, sobre os cidadãos excluídos, desde sempre, do cerne das decisões mais importantes da nação.

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