A farinata e o mundo

9/novembro/2017 - 6:46 pm

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

A história da farinata parece ter acabado – o recatado Prefeito disse que tudo não passou de uma “falha de comunicação” e vamos deixar o homem trabalhar. Não acredito.

Essa história é mais importante do que parece. Acima de tudo, porque retrata uma visão de mundo.

Uma visão de mundo com a qual eu não concordo – e que, a meu sentir, não pode prosperar.

A coisa se inicia a partir de uma causa legítima e pra lá de importante. Para, alegadamente, resolver o trágico problema, anuncia-se uma mágica não explicada e monta-se um teatro medonho, com direito a um carnavalesco arremedo de eucaristia, o que deveria afrontar quem é e quem não é cristão. A solução mágica, porém, é caríssima – e alguém (leia-se: o inventor do processo de transformar descarte em ração), se a proposta colasse, iria ganhar muita grana com isso.

Nada contra ganhar dinheiro: se esse projeto fosse minimamente viável, quem o faz iria competir no mercado, colocando a farinata na prateleira de biscoitos do Pão de Açúcar e sem a ajuda dos compadres. Daí sim, eu gostaria de ver quão bom é esse treco.

Para esse bicho ficar de pé, só mesmo com dinheiro público – que poderia ser melhor usado em inúmeras outras opções mais dignas e mais saudáveis para ajudar a população carente.

População carente? Quem se preocupa com isso? Quem manda nessa história é o marketing.

Não, não houve falha de comunicação. Houve uma comunicação muito específica, verdadeira, direta e… chocante.

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