A lógica da limpeza

20/setembro/2017 - 8:54 am

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

 

Certas idiotices, de tão insistentes, levam a crer que o que está por trás delas não é apenas a ignorância – mas a boa e velha manipulação.

Rodrigo Garcia é o secretário estadual da Habitação do Governador Geraldo. Foi deputado estadual por três vezes e, atualmente, está licenciado do mandato de deputado federal justamente para ser secretário. Como só de vida parlamentar o homem tem uns duzentos anos, não dá pra dizer que ele seja um néscio ou um coitado.

Nos últimos dias, sua Secretaria tem divulgado a proximidade da implantação de um projeto habitacional, contratado pelo Estado através de uma PPP (parceria público-privada), o qual promete transformar a região do entorno da Praça Júlio Prestes, centro da cidade de São Paulo. Coincidência ou não, é também naquele entorno que está aquilo que chamamos de Cracolândia.

Ao que parece, serão entregues mais de 1200 apartamentos, sem falar da revitalização da praça para que ela faça belo caminho entre a Sala São Paulo e uma escola de música, além da criação de espaços recreativos e elegantes bulevares para lojas.

A dúvida que fica, no entanto, é a seguinte: e como fica a situação dos dependentes químicos que teimam em existir?

Para Rodrigo Garcia, cabe dizer, primeiramente, que lugar de dependente não é na rua, atrapalhando a boa circulação – e, sim, em albergues e clínicas. E mais: considerando que o local ficará menos degradado, é natural que haja clima “para acabar com o consumo de drogas em larga escala na região”.

Se entendi bem, de duas, uma: ou o secretário acredita que, como a região será ornada com belos prédios e lojas, automaticamente aqueles doentes se curarão sozinhos, deixando de consumir “drogas em larga escala” (talvez apenas em pequena escala); ou, então, cientes de sua estética em desconformidade com a beleza reinante, esses mesmos doentes correrão para se esconder em algum lugar fechado.

Uma terceira hipótese seria o secretário dizer que, contanto que se afastem da sua bela PPP, os doentes que se lasquem.

Seja como for, faltou pouco para o amoroso político dizer que quem vive o inferno da dependência química o faz por simples prazer – e gosta de viver na sujeira. Seria razoável, portanto, limpar da região as pessoas sujas, varrendo-as para debaixo de algum tapete.

Num governo minimamente sério, esse camarada já estaria exonerado. No entanto, como vivemos cercados pelo prazer sujo da própria ignorância, é bem provável que o homem ganhe outra eleição, com as santas recomendações do cristão Governador Geraldo.

 

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v. http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/09/1918657-praca-julio-prestes-no-centro-de-sao-paulo-recebera-revitalizacao.shtml

v. http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2017/09/1919643-ppp-da-habitacao-acelera-obras.shtml

 

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