“A Malha” ou Um por todos e todos por Temer

5/setembro/2017 - 4:26 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Temer e A Malha: inexpressividade política, fisiologismo e nada de caráter. Está tudo dominado!

Temer vai passar, como tudo passa. Quisera eu estar vivo para ver este período como nota de rodapé no livro da nossa História. Não vou ver. A quadrilha que se apoderou do Brasil vai constar nos anais como um exemplo de sucesso. Conseguiu com maestria demonstrar a todos os detentores das novas ideias o conceito de rede. Os fios parecem estar todos conectados. (Para prosseguir, vou batizar esta rede de corruptos de “A Malha”. Ou seja, quando vir o termo “A Malha”, visualize aquele político que trabalha no fisiologismo, não se preocupa com o povo ou com sua função, apenas lhe interessa dinheiro e poder, como fim, não como meio. No espectro da política macro, ele orbita em torno do PMDB, o que inclui PT e PSDB, claro. Só por esta panorâmica, já percebemos que se trata da grande maioria da classe política. São raríssimas as legendas ainda castas. Mas não se engane, muitos oportunistas surgirão proclamando o novo. Na prática, tudo o que eles querem é manter A Malha funcionando.)

Rodrigo Janot fez, ontem, tempestade em copo d’água. De tudo que já vazou, nada corrobora a placidez ansiosa do procurador-geral e o assombro que ele tentou causar à nação. Todos os fatos parecem nos levar a um final ruim, que é salvar Temer e, por conseguinte, o restante majoritário de facínoras. A Malha alcançou Janot.

No roteiro já escrito, os mocinhos cedem, os vilões vencem. Não há surpresas. Vamos todos perder.

Nesse roteiro cheio de clichês não há reviravoltas. Já sonhamos com elas, com a vitória do mocinho, um recomeço, uma transformação. Hoje sabemos quem ganha, não temos ilusões. Meus heróis morreram de overdose. Eles tinham um certo caráter. Esses nossos “heróis” modernos: Moro, Janot, Barbosa, Fux etc, não resistem à aproximação dos fios d’A Malha. Ela espalha seus filamentos pelos corredores até alcançar a presa. Uma vez tocada, A Malha vence.

Impossível não pensar na ambiência do cinema noir, a penumbra emoldurando a fumaça dos charutos e cigarros, o clima soturno sugerindo o submundo, enquanto do outro lado da cidade a máfia respira em seus banquetes ruidosos. Num canto qualquer, algo é dito ao pé do ouvido, um segredo, uma mácula do passado. A Malha.

Esse novo estardalhaço na política brasileira, lembrou muito o efeito da água sobre o fogo. No primeiro instante, sobe a fumaça, poderosa, densa; no seguinte, a tranquilidade, fazer o rescaldo, e comemorar. Janot conseguiu questionar a credibilidade do STF e arranjar uma punição para Joesley e os delatores da JBS. Além, claro, de oferecer a sobrevida tão conveniente a Temer e seus comparsas, coincidentemente, do outro lado do mundo. O sorriso cínico e a autoconfiança sugerem que aquele cochicho no jantar da máfia era sobre Janot.

O dinheiro de Geddel, amigo íntimo de Temer, solto por Marco Aurélio Mello. A Malha.

Marco Aurélio Mello, algumas semanas atrás, surpreendentemente, liberou Aécio para voltar às atividades parlamentares, e soltou Geddel, este mesmo que armazenava em um apartamento em Salvador malas e caixas de dinheiro vivo. O ministro do Supremo foi o primeiro a pular de sua cadeira acolchoada para saber a que nomes se referia o procurador-geral. A Malha.

Infelizmente, nosso destino está traçado. Pertencemos à classe dos ignorantes e ignorados. Nossos heróis morreram moralmente. Esta corja de caráter apodrecido permanecerá administrando as nossas vidas, em cochichos e estardalhaços, destruindo nossa última chance.

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