O umbigo do ministro

14/junho/2017 - 5:25 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Quando o honorável ministro Gilmar Mendes proferiu seu voto no julgamento do processo de cassação da chapa Dilma-Temer, na última sexta-feira, jogou a derradeira pá de terra sobre o caixão de uma das instituições soberanas de uma democracia: a Justiça.
Ao assumir que abriu o processo devido aos graves fatos investigados – e confirmados! -, mas que não tinha a intenção de cassar mandatos, Gilmar Mendes admitiu que seus critérios valiam para Dilma Rousseff, mas não para seu amigo íntimo, Michel Temer. No caso de um assassino, equivaleria a dizer que o processo valia apenas para investigação, mas não para punição. Não é relevante, no caso, se o assassino tornou-se um serial killer e prosseguiu matando indiscriminadamente. Para o ministro, a identidade do assassino vale mais do que a Justiça.
Há muito tempo Mendes nos assombra. Sua figura de rotunda envergadura percorre os corredores do poder sem pudores, frequentando gabinetes e palácios com a mesma desenvoltura de quem vai ao mercado comprar frutas. Sua assinatura aparece em habeas corpus polêmicos como o de Roger Abdelmassih, o médico estuprador, condenado a 278 anos de cadeia, de Daniel Dantas, o banqueiro larápio, Celso Pitta, Eike Batista e tantos outros. Mendes odeia ver seus pares atrás das grades.
Vejamos o rol de amigos do ministro:
Joesley e Wesley Batista, donos do frigorífico JBS, para onde vai boa parte do gado de corte da fazenda da família de Gilmar Mendes. É do grupo também o patrocínio de mais de 2 milhões de reais para o IDP (Instituto Brasiliense de Direito Público), escola de Direito, que tem como sócio o ministro.
O senador Aécio Neves, afastado de suas funções no Senado por ter sido flagrado negociando propina, receptada por um primo. Aliás, o ministro e o senador foram gravados em conversas impróprias e suspeitas, demonstrando um certo grau de cumplicidade, incompatível com a alta função que ambos ocupam.
O ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, atualmente preso, é outro amigo do peito.
Do presidente Michel Temer nada podemos falar. Todos já sabem.
A lista de amizades do ministro é longa e conhecida do público, principalmente, porque Gilmar Mendes é um entusiasta dos holofotes, não foge de perguntas, mesmo que as respostas sejam tortas e rudes, como ele mesmo gosta de falar.
Uma das poucas vezes em que a publicidade foi rechaçada pelo ministro foi quando seu nome apareceu na lista do esquema de propinas de Furnas como beneficiário de 185 mil reais. Na época, 2000, Gilmar Mendes dirigia a Advocacia-Geral da União. A lista é conhecida desde 2006 e foi engavetada pelo Procurador-Geral da República, Rodrigo Janot, justamente por conter o nome do ministro. Mendes garante que se trata de um homônimo.

Com a sempre condenável relação entre o público e o privado, a crise política que nos deixa em agonia ganhou uma nova cara. A do ministro que fala muito, não diz nada, não escuta, e só enxerga o próprio umbigo. Resta saber se está limpinho. Parece que não.

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