A Nau acabrunhada

27/junho/2017 - 5:36 pm

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Sentado em sua cadeira confortável, o capitão observava impassível a tempestade derramar sua fúria sobre a parede envidraçada da ponte de comando. Era um ciclone extratropical categoria cinco. Seria seis, se seis houvesse na escala há muito consagrada. Seus olhos pareciam não acreditar que, apesar da monstruosidade das águas, as que caíam do céu e as que ele teimava em singrar ferozmente, a nau permanecia funcionando, com umas ou outras avarias, lenta, mas inaufragável.

Uma parte da tripulação já não obedecia cegamente as suas ordens e conspirava pelo motim. Outro. Ele mesmo estava ali por obra e graça de um motim, magistralmente arquitetado. Eles só não podiam imaginar que o ciclone permaneceria vivo, e maior. Todas as manobras e subterfúgios surtiram pouco ou nenhum efeito sobre o fenômeno. Aos poucos, ele viu membros da tripulação, alguns íntimos, sendo abatidos pelos ventos ou pelas águas. Por vezes, ele esteve a ponto de cair, mas resistiu. Como um bom capitão, afundará com o navio, ou aguentará como der até ser substituído.

Iluminado por dezenas de relâmpagos, o capitão lentamente tira o quepe de sua cabeça e o repousa sobre o colo, expondo a cã, caprichosamente penteada para trás com o auxílio de algum produto químico indefinível sob os flashes vindos da tempestade. Na solidão da cabine de comando, ele tecia diálogos consigo mesmo, talvez, sua própria consciência.

– Nunca vi uma tempestade tão ruidosa, tão constante, contínua e violenta.

– Por outro lado, já enfrentamos inúmeras crises e, vamos, nunca nossa nau resistiu tão bem. Talvez os capitães anteriores tenham tido algum mérito nisso.

– Sim, tiveram. Mas também foram muito imprudentes. Mantínhamos o navio navegando em velocidade suficiente para dar a ilusão aos passageiros de que estamos sempre indo. Os últimos capitães queriam mais velocidade, ao mesmo tempo que desviavam combustível para o mercado negro.

– Mas esse esquema de desvio sempre existiu, Capitão. O senhor mesmo, todos sabemos, até os passageiros…

– Sim, mas sempre foi no limite necessário para manter o navio em movimento. Eles queriam mais velocidade. Mais velocidade, mais combustível. Até que uma hora rompemos o excedente e o navio para. Ou o que é pior: quebra. Eles criaram um crescimento artificial de velocidade. Nós precisamos interceder para manter a nau navegando…

– E, claro, todas as benesses…

– Claro! Como eu, os oficiais e a tripulação podemos sobreviver sem o nosso extra? Acha que é fácil carregar o peso de ser capitão? De comandar esta nau gigantesca? Além do mais, os passageiros mais abastados sempre foram tão generosos com os oficiais

– Generosos e gananciosos. Para mim sempre foi claro que eles ganham muito mais dinheiro do que nós.

– O que você quer dizer com isso?

– Quero dizer que eles nos exploram. Veja: no centro da tempestade, se o navio vai mal, quem sofre as consequências? Nós. Sempre nós. Os passageiros, os abastados e os miseráveis, vão continuar sobrevivendo, mas, e nós? Sem a nossa pompa, nossos uniformes de gala, nossas condecorações, o poder, o dinheiro… nós não somos nada.

– Você não pode estar sugerindo que aumentemos nossa fatia…

– E por que não?

– Ora, porque estamos no meio da maior tempestade já vista. Não posso nem mesmo garantir que vá terminar a minha viagem. Como eu posso pensar em dinheiro.

– Em mais dinheiro. Porque aqueles quinhentinhos você não dispensou…

– Foi um erro. Ele não deveria ter feito aquele acordo. Ele foi flagrado recebendo o dinheiro do combustível desviado. Pegou muito mal.

– Com um só detalhe.

– Qual?

– Nós não temos nada a ver com isso.

O capitão soltou uma sonora gargalhada, recostou-se na cadeira e ficou refletindo sobre as palavras que ele mesmo proferira, ele ou sua consciência, não tinha certeza. À sua frente não havia horizonte, via apenas as gotas do tamanho de moedas de um real explodindo no vidro blindado e a escuridão malfazeja dos cúmulos-nimbos. Esperava, já meio impaciente, por uma abertura no céu, um fato novo, algum milagre que aliviasse levemente aquela tempestade. Só assim poderia pensar seriamente no futuro. O seu futuro.

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