A Prefeitura e o Lide: onde o público e o privado se encontram

19/julho/2017 - 10:11 pm

Publicado por

Desde 2014, com a deflagração da operação Lava Jato, o Brasil vem descobrindo um pouco sobre os hábitos nada republicanos de nossos políticos. Um desses hábitos – ou vícios – é o de imiscuir o público com o privado. Essa mistura, como todos sabemos, é um dos fatores que mais contribuem para o atraso contumaz de nossa nação apequenada.

Por isso mesmo, a negação da existência de tal relacionamento íntimo, por parte de nossos representantes, é a resposta padrão. “Nunca vi”, “nunca ouvi”, “nunca estive” são frases banais em entrevistas e notas de esclarecimento. A maioria dos eleitos prefere ser devorada pelo monstro do lago Ness a admitir que possui tratativas com membros do alto escalão da iniciativa privada. Mas há exceções.

A exceção mais proeminente no momento é o prefeito de São Paulo, João Doria Jr. Nome forte para encabeçar a chapa do PSDB à presidência da República, sua história é forjada justamente na linha onde o público e o privado se encontram. E tudo indica que é nesse terreno delicado que ele está assentando a administração da cidade.

O grupo Doria é formado por sete empresas especializadas em fornecer material, gerar conteúdo e abrir caminhos para que o setor privado gere negócios e ganhe dinheiro, que é, primordialmente, seu objetivo. É claro que entre as expectativas de negócios o Estado tem cacife de respeito. É fácil e lógico constatar que, ao longo de 25 anos, os caminhos do Grupo Doria e do Estado, em suas variadas vertentes, inevitavelmente, se cruzaram. E, em princípio, não há problema nisso. O problema é o retorno de Doria ao setor público, trazendo na bagagem a experiência adquirida nessa relação, que pode ser muito perigosa.

Uma das especialidades do prefeito é o marketing. Faz parte de sua formação profissional e é um dos pilares de suas empresas. No entanto, a propalada transparência, essa propensão às telas, de tevês a smartphones, tão natural ao prefeito, que adora propagandear as doações recebidas pela prefeitura ou seu desejo de privatizar meia São Paulo, não é compartilhada pelos sites do Grupo Doria. Na página do grupo impera a desinformação. É uma página apenas, onde consta um breve release sobre cada empresa. Os botões no topo da página nos levam à própria página, num ir e vir inútil. Apenas os programas Show Business e Face a Face nos levam a seus respectivos canais no Youtube, e o Lide, que tem seu próprio site. E é o Lide que nos interessa.

A página do Grupo Doria: releases no ctrl+C, ctrl+V

De todas as empresas do grupo, o Lide (Grupo de Líderes Empresariais) é de longe aquela que oferece mais informações ao público. Mesmo assim, não muita. É também – até onde sabemos – a que mais forneceu quadros para a administração municipal. São três: Luiz Fernando Furlan, presidente de gestão do grupo, que assumiu o Conselho Deliberativo da SP Negócios, onde trabalhará com outro egresso do Lide, Juan Quirós. O terceiro é Paulo Uebel, ex-CEO e atual secretário de gestão da prefeitura. Nada mais natural, portanto, que o Elo, criado com o objetivo de fiscalizar a política, procure encontrar explicações para tal relação tão próxima. Mas não é fácil entrar no Lide.

A primeira tentativa foi através de um e-mail, solicitando mais informações e uma entrevista. O pedido foi enviado através de um box para contato presente no site. Aguardamos uma semana, mas não obtivemos resposta.

A segunda tentativa nos levou ao endereço da empresa, na Av. Faria Lima. Não passamos da recepção, onde, depois de muita insistência e com a permissão de alguém do grupo, conseguimos um número de telefone. Do outro lado da linha estava Cíntia Esteves, coordenadora de comunicação do Lide. Segundo ela, o e-mail do site não está funcionando e os porta-vozes, que poderiam dar entrevistas pela empresa, encontram-se de férias. Também não tivemos permissão para subir e conhecer as dependências do grupo. Assim, nos restou passar nosso endereço de e-mail e aguardar mais uma vez por um retorno.

Prédio na Av. Faria Lima que abriga o Lide no 11º andar

Ao sair, tiramos algumas fotografias do prédio, imponente na avenida com seus traços de art noveau. Imediatamente, fomos abordados por um segurança, que nos informou que era proibido tirar fotos ali. Apesar do argumento de que estávamos em via pública, ele insistiu e pediu para nos retirarmos. Fizemos mais algumas fotos e fomos embora.

A resposta veio três dias depois, através de um e-mail assinado por Fernando Irribarra. Ele faz parte do grupo CDN, empresa de comunicação que, tudo indica, cuida dos contatos do Lide com a imprensa. O texto repetia palavra por palavra tudo o que estava no site. Não tivemos alternativa, a não ser enviar outra mensagem solicitando informações sobre sua função no Lide e com sete perguntas acerca do grupo e suas atribuições. Nesta quarta-feira, 19 de julho, Fernando nos enviou a resposta. Não explicou sua função, mas respondeu às questões que enviamos. Tire suas próprias conclusões:


EloO que é preciso para ser um membro do Lide?
IrribarraO LIDE – Grupo de Líderes Empresariais é formado por empresas brasileiras e multinacionais de diversos segmentos da economia.

Elo Há uma mensalidade paga pelas empresas participantes?
IrribarraHá uma anuidade, de R$ 10 mil reais, para que dois executivos no cargo de liderança (presidente e vice-presidente) participem dos mais de 200 de eventos ordinários (almoços, cafés, seminários), realizados ao longo do ano.

Elo. Quais são as empresas participantes?
IrribarraSão empresas nacionais e multinacionais das unidades nacionais e internacionais do LIDE.

Elo Posso chamá-las de associadas?
IrribarraAs empresas são filiadas ao LIDE.

Elo É daí que vem o fôlego financeiro do Lide (da mensalidade) ou dos eventos promovidos?
IrribarraO faturamento do LIDE é composto pelas anuidades das filiações.

Elo Por que o site do Lide (e do grupo Doria) é tão desinformativo?
IrribarraO site do LIDE (lideglobal.com) contém as informações de interesse dos filiados.

EloNormalmente, as empresas gostam de divulgar seus produtos, seus sucessos, etc. No entanto, o Lide parece esconder todas as informações importantes. Porque o objeto de trabalho de vocês é o lobby?
IrribarraO LIDE divulga amplamente em todos os veículos de imprensa do Brasil, tais como O Estado de S.Paulo, Folha de S.Paulo, IstoÉ, DCI, O Globo, Valor Econômico, Zero Hora (RS), O Popular (GO), Jornal do Commercio (PE), além dos veículos internacionais das unidades em que está presente, os projetos realizados pelo grupo (no site no ícone “imprensa”). Inclusive, alguns dos eventos são transmitidos ao vivo em TVs como Record News e mesmo na TV LIDE (que abriga o conteúdo dos eventos/palestras). O LIDE não faz lobby.

É claro que não ficamos satisfeitos. Aguardamos, agora, o retorno dos porta-vozes, para que possamos entender um pouco melhor essa relação entre o grupo Lide e a administração da cidade de São Paulo, especialmente, o cruzamento de dados entre as empresas filiadas ao grupo e a planilha de doações para a prefeitura.

Notícias