A Riqueza das vias tortas

27/setembro/2017 - 9:29 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

De onde vêm as riquezas? De onde vem esse acúmulo de capital? Como é possível um país como o Brasil estar em tão poucas mãos?

Esse descalabro econômico, que flui torrencial em contas virtuais, mas que míngua nos bolsos rotos da população, é fruto de um conjunto de enredos dentro da nossa História. Não vou esmiuçar aqui nossas entranhas, mas é público e notório que o país sempre esteve sob o jugo de uma pequena elite exploradora. E isso não é papo de comunista, é papo de colonizado. A corte portuguesa foi a primeira a se aproveitar de nossas riquezas. E quis nosso destino que ela, a corte, se mudasse para cá, fugindo acovardada dos surtos napoleônicos. Trouxe para nosso território o vício vampiresco da exploração.

Até aquele momento, boa parte dos brasileiros não tinha ideia do que era feito com o fruto de seu suor e trabalho – e incluo aqui todos os milhões de africanos escravizados, o que apenas ressalta o alto grau de desumanidade da relação entre a metrópole e a colônia. A corte trouxe ostentação, luxo e vantagens nunca dantes vistas nessas plagas. Além disso, deu legitimidade à nação. Como aqui se tornou a sede do império português, podíamos até nos sentir um pouco europeus.

Mas o deslumbramento durou pouco. Em alguns anos, os brasileiros mais letrados perceberam que nada iria mudar. Napoleão perdeu, D. João queria voltar para a Europa, e o Brasil continuava em figuração no espectro mundial. A Independência tornara-se necessária e inevitável. E fez-se!

Fez-se da pior forma possível. O filho do imperador português declarou nossa libertação e tornou-se nosso imperador. Logicamente, tudo permaneceu caminhando como sempre. Aí veio o Pedro II, levado ao trono aos 14 anos, algumas guerras, o fim da escravização, depois de uma imensa pressão internacional, em um processo realizado da pior forma possível. Estava pronto o cenário para a República. E fez-se!

Da pior forma possível. Pelos militares! Era como se um bastão fosse passado de uma elite para a sucessora. Dali, finalmente chegou aos políticos profissionais, que tornaram-se a nova elite exploradora. Ao longo do século passado, tivemos ditaduras, uma delas, a maior, mais uma vez pelos militares, intercorrências, suicídio, golpes, enfim. E alguns períodos de democracia. Estamos em um deles. E vamos torcer para nele permanecermos.

E é neste momento da História que nos deparamos com números como este: A ele podemos juntar os números da Educação e as relações promíscuas do Estado. Essa tríade, os oportunistas do Estado detentor das riquezas, o empresariado disposto a pagar por elas e a população deseducada, incapaz de interpretar os fatos, é o caldo que alimenta nossa nação. Afinal, não é possível chegar a tal nível de acumulação de capital sem que o Estado não seja cúmplice por décadas, ou séculos. É exatamente esta cumplicidade que os engravatados de Brasília querem manter intacta. Em contrapartida, no fim da fila, vêm os milhões de brasileiros, sem Educação, sem saúde, sem segurança, e cada vez mais sem esperança.

É este sistema que precisamos destruir.

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