As consequências

5/outubro/2017 - 9:50 am

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

Entre outras poucas coisas que me engradecem o currículo, está o fato de ter sido xingado de “espírito de porco” pela imparcial Mônica Waldvogel e de “monstro da esquerda” pela elegante rapaziada do MBL.

A política é uma eterna malhação de Judas. E quando chega a sua vez de apanhar, pouca gente aparece pra ajudar. Muito pelo contrário: até o mesmo o colega do lado, de quem você esperava uma força, pega o primeiro porrete que vê e não pensa duas vezes pra tacar na sua cabeça. Ninguém gosta de perder.

Refiro-me, é claro, à ação judicial que movemos em março, questionando as doações coletadas pelo piedoso Prefeito Doria e feitas por empresas interessadas em fazer negócios com a Prefeitura (algumas, aliás, já o faziam ao mesmo tempo em que doavam). Doação não é investimento nem pode trazer uma agenda oculta para ganhos futuros.

Posso ser novo na política, mas sou velho na advocacia. Sei identificar um enganador a quilômetros de distância. Pois bem.

Nem bem o modelo Doria de animar auditório fez 9 meses e já por duas vezes essas doações esquisitas pegaram mal. E olhe que as concessões e privatizações nem começaram pra valer.

A primeira vez foi com a manutenção dos semáforos. Uma empresa acusou a concorrente de ter sido ilicitamente favorecida – e o Tribunal de Justiça de São Paulo mandou suspender a concorrência, destacando que a empresa beneficiada era uma desinteressada doadora da Prefeitura.

A segunda vez foi no dia de ontem.

O TCM mandou suspender a concorrência para a varrição de ruas. O motivo: ao que tudo indica, o edital traz exigências que só podem ser cumpridas pelas duas firmas que já prestam o serviço – truque mais velho do que andar pra trás. Em cinco minutos de pesquisa, já vi que ao menos uma delas é também caridosa doadora do não menos caridoso Doria (sujeito que, “apenas”, quer ser o próximo Presidente do Brasil).

Valeu a pena ter apanhado em março, pois quem paga a conta da traquinagem somos eu e você.

O problema das consequências, disse um sábio, é que elas vêm depois.

 

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Folha de S. Paulo, 05.10.17, “TCM barra licitação de Doria para varrição

 

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