Copo meio vazio

14/julho/2017 - 10:56 am

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

Ler só a sentença do processo contra o Lula não serve para formar convicção alguma. O certo é ler o processo inteiro, todos os volumes, de cabo a rabo – pois muitas coisas ditas na sentença podem não estar nos autos, assim como outras, ignoradas na decisão, ali podem estar.

Como não li (e não tenho a menor intenção de ler) a bagaça inteira, prefiro ver as coisas à luz dos dois pontos de vista hoje conflitantes.

Primeira hipótese: Lula não deveria ser condenado. Não há prova de que ele tenha recebido propina e que teria beneficiado a OAS.

Nesse caso, estamos lascados. Juízes e promotores estão curtindo à beça aparecer no Face, receber aplausos da galera, posar de Batman sem máscara – e, dia sim, outro também, mandar buscar num camburão da polícia qualquer um que lhes dê a chance de aparecer no Jornal Nacional. São imperadores com poder de vida e de morte sobre qualquer um, culpado ou inocente.

Segunda hipótese: Lula foi corretamente condenado. Recebeu grana suja de quem roubou dinheiro público pra ter um apê na praia. Apesar de um prefeito muito famoso dizer que existe almoço grátis, é óbvio que nosso Lula sabia muito bem que, em troca de um carinho, sempre vem um pedido de dinheirinho (ainda mais quando o carinho vem de quem faz bons contratos com o Poder Público).

Nesse caso, lascou ainda mais. O sujeito, com certificado de ladrão, foi duas vezes Presidente da República e, também por duas vezes, elegeu um belíssimo dum poste – que, para dizer o menos, se revelou uma tragédia na porcaria econômica que arrumou. Pior: durante um baita tempo, essa rapaziada contou com um arco de alianças que ia do estimado Presidente Michel ao virtuoso Waldemar da Costa Neto dos velhos tempos do mensalão, passando por Paulo Maluf, Romero Jucá e Renan Calheiros. Tudo gente boa.

Detalhe: o cabra tem 30% de intenções de voto pra Presidente e muita, mas muita gente mesmo defende sua honra com mais convicção do que têm os seguidores de INRI Cristo quando dizem que ele é Jesus reencarnado – e, por isso, é perfeito até nas suas falhas.

Cada seita tem o Messias que merece – mas o diabo é quando a religião alheia impõe consequências a todo mundo (quesito no qual, convenhamos, o INRI leva inegável vantagem moral sobre o Lula).

Ou estamos num País com juízes e promotores que caçam qualquer um para ter curtidas no Face ou estamos num lugar que foi – e tem boas chances de continuar sendo – governado por ladrões endeusados por seguidores do INRI.

Sem precisar dar opinião alguma, fica claro que, das duas coisas, uma necessariamente é verdadeira – e, por mais que tente ser otimista, fica muito difícil não dar atenção à parte vazia desse copo.

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