Detritão: a mãe de todas as batalhas

10/agosto/2017 - 5:06 pm

Publicado por

Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

 

A capacidade da velha política de estapear, sem dó, as faces de quem lhe sustenta é infinita.

Como todos sabemos, o Detritão, regra nova para a consagração de gente antiga, já começou a dar seus largos passos para ser imposto goela abaixo de quem não se vê representado por Malufs, Jucás, Aécios, Cândidos, Cunhas e sabe mais o Diabo o quê.

A regra é clara: cada candidato a deputado precisará fazer uma campanha de governador.

É a eleição do churrasco, da emenda parlamentar liberada, do jatinho, da amizade sincera com vereadores e, sobretudo, de muito, mas muito dinheiro mesmo.

Tudo isso, com um mero detalhe: como leva a grana, digo, as fichas quem tiver mais votos espalhados pelo Estado inteiro, será muito difícil estabelecer qualquer vínculo entre eleito e eleitor, seja em função da identidade com determinada região geográfica, seja em função da identidade com segmentos sociais. Ou seja: a tão sonhada representatividade (e sua irmã gêmea, a cobrança, pelo eleitor, da atividade de quem representa) vai para o cafundó do Judas.

Fui candidato a vereador nas eleições do ano passado e, nessa condição, pedi votos na rua durante toda a campanha, sem direito a pausa. Não houve um dia de Nosso Senhor que uma pessoa não me abordasse, indagando se eu morava no bairro, que padaria frequentava e onde tomei minhas pingas – enfim, tudo o que se pergunta na esperança de que, um dia, o eleitor haverá de responsabilizar o eleito por aquilo que ele (ou ela) faz ou está deixando de fazer no exercício do mandato. Nem que seja só para xingar o sujeito na rua.

De minha parte, fui (e ainda sou) defensor das candidaturas temáticas, representativas, por exemplo, do movimento negro, da diversidade sexual e, no meu caso, das pessoas que lidam com a dependência química. São candidaturas tipicamente encaixadas a eleições proporcionais – e, por isso, me parece que, de longe, o sistema mais justo seria o distrital misto.

Toparia, porém, sem problema algum de consciência, em face da dramática crise de representatividade que lança a política ao último círculo do Inferno, a adoção do sistema distrital puro, pois, a exemplo de centenas de pessoas com quem conversei, gostaria de saber exatamente quem diz me representar, tenha eu votado nesse cabra ou não.

Seja como for, nada disso se parece com o Detritão, inventado para mumificar os caciques que, no privado, se orgulham de nos envergonhar em público. Para quem defende qualquer tipo de renovação da política, não poderia haver coisa mais ultrajante.

A verdade é que a eleição de 2018 já começou, nós é que não percebemos.

E pior: estamos perdendo feio.

Eis uma causa pela qual andaria de mãos dadas com quem, desde que de boa-fé, adotasse posições ideológicas oceanicamente distantes das minhas – de maoístas até defensores de um Estado esfarrapado, de tão mínimo. Todos esses, no entanto, estão prestes a morrer abraçados – mas separados.

Seja pelo contexto, seja pelo autor da frase, falar em “mãe de todas as batalhas” é feio, eu sei – mas muito mais pavoroso é ficar bestificado, tomando um tapa na cara após o outro.

Notícias