26 de Junho, Dia Nacional da Piada

26/junho/2017 - 10:20 am

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

26 de junho, no Brasil, é o “Dia Nacional de Combate às Drogas”.

Meu ímpeto, ao lembrar disso, seria dizer que o Brasil ainda engatinha nesse assunto – mas como a ideia de engatinhar pressupõe algum tipo de evolução, sou forçado a me corrigir: o Brasil, aqui, acelera em alta velocidade… para trás.

Exemplo disso é a piada de péssimo gosto com que nos brindou a atual gestão municipal de São Paulo – “apenas” a maior cidade do País.

Para tratar da política sobre drogas do Município, nosso piedoso Prefeito trouxe um renomado professor que, há uns 15 anos, dirige um centro de estudos patrocinado pela Ambev. Ou seja: alguém que ganha dinheiro e é da confiança da indústria do álcool (uma indústria que, só pra lembrar, também é muito preocupada em despejar dinheiro a rodo em financiamento eleitoral).

Como nenhuma outra droga escraviza 10% da população brasileira (e esse é o percentual de quem vive o inferno da dependência química do álcool), a doença do alcoolismo é o maior dos problemas nessa área – e ignorar isso é como enxugar gelo.

O responsável pelas políticas sobre drogas do Prefeito Doria, no entanto, parece que não pensa assim – e, piedoso, parece passar a mão sobre a cabeça da doença do alcoolismo, como se ela fosse um dócil cãozinho de estimação.

Perguntado sobre o que fazer com a Cracolândia, o coordenador reclama da “venda de drogas”, que, por lá, seria “exuberante”*. Pois é.

Já a indústria do álcool, acrescento eu, é extremamente tímida nas suas propagandas e, como sabemos, pouquíssimas biroscas no Brasil vendem pinga e cerveja.

O professor diz também ser “totalmente contra o uso de drogas”. Todas as drogas? Não, todas não: apenas as “ilegais” e o “tabaco”. E o álcool?

“O álcool é uma droga especial”, revela o homem de confiança do Prefeito Doria.

Especialíssima – confirmo eu.

Mas por que o álcool seria tão especial? Porque, segundo o professor do Doria, o álcool “existe há milhares de anos e vai continuar existindo”.

Amigo, você está de brincadeira comigo.

Caim matou Abel – e nem por isso vamos sair por aí festejando o homicídio.

Ademais, tenho seríssimas dúvidas sobre se o álcool é a única droga que existe há milhares de anos – e mais dúvidas tenho ainda sobre se será a única que continuará existindo, pois a humanidade me parece bastante criativa nesse segmento.

E, por fim, por que diabos isso seria relevante, se o ser humano que sofre é o mesmo?

De qualquer modo, legais ou ilegais, o professor do Doria é contra todas as drogas, menos o álcool – pois o álcool, tal como a Divindade, sempre existiu e sempre existirá. Alguém está surpreso com a sagacidade do raciocínio?

Querido Prefeito, aceite esse conselho, que eu lhe dou de graça: aproveite esse 26 de Junho e pratique um ato de sobriedade: refaça do zero sua política sobre drogas, a começar pela imediata demissão do professor do Deus Cerveja**.

Não seja o patrocinador de mais esta infeliz piada.

 

*http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1895838-gestao-doria-vai-criar-prontuario-eletronico-para-usuario-de-crack.shtml

**http://elomovimento.com.br/index.php/o-deus-cerveja/

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