Doria e a sua burrice

30/junho/2017 - 3:58 pm

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

Soube hoje que os contribuintes paulistanos gastaram a mixaria de 6 milhões de reais para contar às pessoas aquilo que elas já sabem: que o crack faz mal*.

Esse foi o valor da (bem produzida) propaganda, veiculada na TV e nas redes sociais, que inaugura a, por assim dizer, fase informativa de políticas sobre drogas de nosso preocupado Prefeito Doria.

Pelo raciocínio da propaganda, cocaína aspirada, haxixe, maconha, anfetaminas, cerveja, uísque, conhaque e cachaça estão liberados. Amigo, amiga, você está livre para encher a cabeça de pinga até o sol raiar e cair de nariz aberto em cima do monte de farinha – porque o problema, ao que se vê, é o crack.

Eu até entenderia o filme do Doria caso houvesse, em nossa cultura, propagandas que alardeassem o crack como algo positivo, ligado à sexualidade, à diversão, ao bem-estar e à alegria. Entenderia isso se, por exemplo, estivéssemos habituados a ver na TV um grupo de belas moças e belos moços, felizes e sorridentes, torcendo pelo Brasil na Copa em volta da telinha – e cada um deles tragando seu cachimbinho com a pedra.

Como isso não existe (muito pelo contrário: o que há de informação sobre o crack tem viés extremamente negativo – vide o caso das Cracolândias), é de se perguntar por que então as pessoas insistem em fumar crack, quando sabemos o que é mais do que provável que aconteça.

Sem medo de errar, digo que boa parte disso deve-se ao fato de que, quando fumaram crack pela primeira vez, esses futuros dependentes estavam alcoolizados. Fizeram uma coisa que, normalmente, não fariam – e, nesse grupo, destacam-se, primeiro, os portadores da doença do alcoolismo (que não conhecem limites para a insanidade vinda com embriaguez) e as pessoas mais jovens (que, ainda que não sejam portadores da doença do alcoolismo, não raro tendem a testar, ao extremo, os seus limites com a bebida, o que vem incrementado com sentimento artificialmente potencializado de que nada de mal pode acontecer com elas). São as pessoas que se colocam em situações de risco – e a experimentação do crack é uma delas.

Não digo que todos são assim – há, por exemplo, os trágicos casos das crianças que se encontram em situação de extrema vulnerabilidade social. E, nesses casos, menos ainda a porcaria do filme do Doria prestará para alguma coisa.

Vou repetir: não sou a favor de proibir o álcool, mas é preciso informar com seriedade a respeito da dependência química.

Muito melhor faria o piedoso Doria se pegasse nossos 6 milhões e os investisse na capacitação de profissionais que pudessem estruturar uma matéria inteira sobre dependência química, obrigatória, destinadas aos jovens das escolas públicas municipais. Aliás, ao invés de se fantasiar de gari, já deveria ter feito isso. No primeiro dia de trabalho.

Em princípio, diria que o Prefeito é apenas um ignorante a respeito do tema.

Como, no entanto, ele possui recursos de sobra para se cercar de pessoas que, na teoria, deveriam entender do assunto – e, mesmo assim, insiste em bobagens e afins –, parece-me que o problema é de desprezo pela realidade.

Ou seja: não sabe e não quer saber – o que, diferentemente da ignorância, é pura burrice.

Seja como for, o futuro é sombrio: qualquer política pública séria sobre a dependência química precisa, necessária e primeiramente, passar pela doença do alcoolismo – e o coordenador dessas políticas, na cidade de São Paulo, é nada menos do que alguém até outro dia patrocinado pela Ambev, nossa mais querida fabricante de doentes.

Aí, pensando bem, não é mais caso de burrice – mas de muita esperteza.

 

* http://m.folha.uol.com.br/cotidiano/2017/06/1897311-video-anticrack-de-doria-nao-tem-perfil-de-usuarios-da-cracolandia.shtml

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