Furada Cultural

30/maio/2017 - 8:01 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Fiasco. Não há outra palavra para definir a edição 2017 da Virada cultural, a primeira da gestão Dória. O prefeito, que chegou a anunciar o evento restrito aos muros do autódromo de Interlagos para depois voltar atrás, manteve seus planos de descentralizar a festa que há treze anos tomava de assalto as ruas centrais da cidade.

Assaltos, aliás, bem como arrastões, atos de vandalismo e até o lixo foram alguns dos motivos apontados para a migração de grandes shows para espaços mais periféricos de São Paulo. A medida, no entanto, saiu pela culatra. O que se viu foram apresentações esvaziadas, atrasos monumentais, shows cancelados e até um palco que não foi montado pela organização.

A abertura do evento, no Anhembi, com a cantora Daniela Mercury, acostumada a arrastar multidões, foi testemunhada por menos de três mil espectadores. Atraso e problemas técnicos contribuíram para o cancelamento da apresentação de Fafá de Belém, no mesmo palco, no meio da madrugada de sábado para domingo. Nesse momento, eram menos de quinhentas testemunhas presentes. Enquanto isso, no Centro, havia palcos entregues às moscas, com atuações para ninguém.

No palco principal, no Vale do Anhangabaú, onde espetáculos musicais, tão raros em exibições populares, seriam encenados, um atraso de mais de duas horas esvaziou o público, que preferiu migrar para outros lugares. Fernanda de Azevedo, estudante de 19 anos, moradora de Itaquera, que pretendia assistir a “Gota D’água a Seco”, com início programado para as 21 horas, foi uma dessas pessoas: “Já são dez e meia. Estamos aqui há uma hora. Ninguém dá uma informação, uma satisfação.”

Uma hora depois reencontramos Fernanda e seus amigos na “Esquina do Samba”, na Ipiranga com a São João, um dos poucos palcos com plateia, mesmo assim, não mais de cem pessoas. “Aqui pelo menos tá tendo show, né? A gente consegue cantar e dançar. Dá até para esquentar um pouquinho”.

O clima, é verdade, também não colaborou. Fez frio no sábado, e no domingo choveu o dia inteiro, o que deixou a região central mais vazia. Se no sábado à noite ainda havia espaço para diversão e negócios, no domingo o clima era de desalento. Os comerciantes, especialmente os de “food trucks”, não tinham o que fazer. Adriano Barros, responsável por uma Kombi de sanduíches, perto do Teatro Municipal, desabafou: “Ontem até que deu para segurar, mas hoje, olha o movimento. Se nós vendemos dez lanches hoje, foi muito.” Isso, às quatro da tarde.

Curiosamente, perto dali, o palco em frente a prefeitura de São Paulo tinha como atração o improviso. Nada mais adequado.

A ideia de levar grandes shows para a periferia, com a desculpa de beneficiar os moradores das regiões mais afastadas, não vingou. Anhembi e Parque do Carmo mostraram-se escolhas erradas. Apenas a Chácara do Jockey demostrou certo potencial para abrigar esses eventos.

Esta descentralização, inclusive, mata a essência de sua proposta inicial. Inspirada nas “Noites Brancas” de Paris, a Virada Cultural apoia-se no conceito de “apropriar-se do Centro”, quando a população sem restrições tem a oportunidade de assistir e conhecer várias formas de manifestações culturais. Ao levar eventos para longe, mais uma vez a Prefeitura segrega, restringindo possibilidades, reduzindo ofertas de cultura e conhecimento.

Outro problema apontado pelo público foi a ausência da programação de bolso, aquele folheto com atrações e mapas, que ajudam a orientar o espectador pelos caminhos do evento. O papel, exageradamente distribuído na gestão Haddad, existia, mas parecia ter sido impresso em pouca quantidade. Só no palco dos Musicais encontramos alguns exemplares, menos de vinte, nas mãos de um segurança. Em cinco horas pelas ruas do Centro, só vimos mais dois, nenhum jogado no chão.

Na hora de ir embora mais problemas. Demonstrando a falta de conversa entre estado e prefeitura, as estações República e Luz da Linha Amarela do metrô estavam fechadas para obras. A interdição, que ocorre geralmente nos fins de semana, poderia ter sido evitada, diminuindo os transtornos para aqueles que tentaram se divertir entre sábado e domingo no centro da cidade.

A edição 2017 da Virada Cultural foi, talvez, o fracasso mais visível da gestão Dória em seus quase cinco meses de mandato. O prefeito, que aparece como virtual candidato à presidência, precisa rever seus conceitos limitados e deixar o povo se misturar. A violência que esteve presente em algumas das edições do evento é efeito colateral de outros problemas do país, e cabe a um policiamento melhor e mais eficaz, assim como ações de prevenção, coibir atitudes que firam o ir e vir dos cidadãos.

Violência e sujeira são sintomas de um povo sem a cesso a educação de qualidade e cultura. Ao afastar do Centro as grandes atrações, o prefeito fez um desserviço à população, ampliando a distância que separa os que têm oportunidades daqueles que precisam lutar para encontrá-las.

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