Juão é alpinista político!

13/julho/2017 - 7:03 pm

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Marcelo tem 48, é ativista político, republicano, democrata e progressista, estudou sociologia e ciência política, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e trabalha com estudos de opinião pública e comunicação política. twitter @oceanoazul

A maior cidade da América Latina serve apenas de trampolim para o alpinista.

A tensão entre grafiteiros, pichadores e poder público local não é em si uma novidade. No mundo todo esta tensão persiste e cada vez mais vem sendo esboçada uma reação que criminaliza o pixo (grafite, tag´s, adesivos) e estabelece punições severas aos praticantes. Ao mesmo tempo cresce a percepção de que a urban art é tão arte quanto aquelas que frequentam as galerias mais famosas. Talvez uma das muitas diferenças esteja na acessibilidade de uma e de outra. A cidade de São Paulo é reconhecida na cena internacional como uma espécie de “Meca” deste tipo de arte, tanto para artistas quanto para espectadores e o debate entre “o que é” e “o que não é”, “o que pode” e “o que não pode” não poderia ficar confinado a uma demão de cinza. O fato inusitado fica por conta da mudança radical que houve na postura da prefeitura com a troca de comando a partir de janeiro deste ano.

“O que é” e “o que pode” ficaram a mercê do gosto pessoal do “aprendiz” de feiticeiro.

O programa “Cidade Linda” precisava de um grande evento com visibilidade para “vender” a ideia de que toda cidade receberia o mesmo tratamento que os jardins estavam recebendo. Apagar os grafites foi uma agressão tão violenta quanto vandalizar um monumento da cidade. E, por este motivo, nós do ELO MOVIMENTO, reagimos procurando na justiça o reparo possível. A demão de cinza representa a guinada conservadora e antidemocrática que a eleição de Juão Doria representa neste momento de tensão social e política que o Brasil vive. A decisão de atacar os desenhos, cujo valor artístico e estético tem reconhecimento social, revelam os dias por vir e engana-se quem acha que Juão não sabia o que estava fazendo. Se a intenção do prefeito fosse “nobre” teria atacado as letras garrafais em preto ou branco estampadas pela cidade que revelam uma profunda desigualdade entre os bairros mais centrais e os mais periféricos. Mas quem disse que apagar essas letras atingiria a mesma finalidade?  

Os grafites serviram meticulosamente para chamar a atenção dos meios de comunicação.

Agora, passados os 6 meses de gestão, o efeito “pirlimpimpim” está enfraquecendo, como mostra avaliação recente do Datafolha com mais da metade dos paulistanos desconfiando da capacidade do candidato a presidente sentado na cadeira de prefeito. Vale lembrar que a reação em relação ao grafite foi tão grande que o prefeito não só não apagou novos desenhos como inventou o museu a céu aberto. Mas a 23 de maio, não era uma espécie de galeria? Precisava apagar? Precisava, porque a verdadeira intenção é descaracterizar a gestão passada. É assim que funciona a mente do político tradicional, transforma conquistas da sociedade em ações personalizadas na figura dessas ou daquelas pessoas. Mas o que devemos registrar é que o prefeito não apagou uma linha sequer de “tag´s” (assinaturas) e “sticker´s” (adesivos) espalhados pelas ruas da cidade. Ou seja, seu verdadeiro objetivo era aparecer, criar polêmica, dividir opiniões, ganhar adesão e aprovar na Câmara em tempo recorde uma legislação mais dura, passando um recado de sua força e prestígio para sociedade brasileira.

O programa “Cidade Linda” é um projeto estético sem efeito na paisagem da periferia.

Apesar do pessimismo que toma conta do mundo neste exato momento, há uma crescente manifestação das pessoas por mais participação e mais colaboração entre sociedade e poder público. Um sujeito com perfil mais progressista defenderia o diálogo com os diferentes atores que atuam na cidade antes de agir, dominaria a questão nas suas diferentes dimensões, espelharia suas decisões com base na experiência adotadas por outras cidades que também enfrentaram o mesmo problema. Mas sujeitos como o conservador Juão – criminalizar e punir – é o único caminho possível. Faz jus ao estilo do seu padrinho político. O problema é que este tipo de “solução” não tem funcionado na Europa e nem nos EUA. Em compensação, as cidades que combinaram leis, rigor e incentivos fizeram mais progressos que aquelas que apenas endureceram suas leis nas ruas.

Mas de que vale se espelhar na experiência dos outros, se você pode errar sozinho.

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