Juão Mãos de Tesoura!

31/julho/2017 - 12:21 am

Publicado por

Marcelo tem 48, é ativista político, republicano, democrata e progressista, estudou sociologia e ciência política, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e trabalha com estudos de opinião pública e comunicação política. twitter @oceanoazul

Cortar do orçamento municipal R$ 4,5 bilhões para gastar depois parece estratégico.

Tenho insistido muito numa mesma tecla nos textos anteriores porque para mim existe uma diferença evidente entre a agenda que o prefeito tem para a cidade e a agenda progressista da sustentabilidade que defendo, e que precisa ser mais explicitada para que a população consiga compreender seus objetivos e fazer novas escolhas. Os bairros mais afastados do centro já são naturalmente os que recebem menos atenção e investimentos da prefeitura. Agora, imagina você com essa crise econômica produzindo estragos e o corte no orçamento agravando ainda mais as dificuldades? O que já era um cenário ruim antes, tende a ficar ainda pior de agora em diante. O que pessoalmente defendo é mais investimento no desenvolvimento econômico e social daquelas regiões menos favorecidas da cidade. Um olhar novo para a periferia com investimento em moradia social, geração de negócios sociais e condomínios industriais de economia limpa. No discurso, o prefeito “mãos de tesoura” tem reiteradamente dito que sua administração é inovadora e que ele trabalha para atrair mais investimentos. Na prática, acontece o contrário: os cortes que estão ocorrendo afetam diretamente a vida dos mais pobres.

Cidade Linda pra quem?

Para fazer certa “justiça”, o programa Cidade Linda é defensável e todos nós queremos a mesma coisa para São Paulo. Acho que ninguém pensa diferente. Mas o problema é que por detrás do discurso fácil vem a realidade, ou seja, quando comparadas ações realizadas na periferia e na região central, fica claro que foram muito mais ações no centro da cidade. A discussão sobre a pichação, por exemplo, dividiu opiniões, mas ninguém discorda em tese que é feio andar pelas ruas e ver aquelas letras todas estampadas pelos muros, prédios, equipamentos e monumentos. Assim como ninguém tem dúvida também que alguma coisa deve ser feita. O problema é quando a primeira medida do prefeito é apagar os grafites de um painel de quase 15 mil m² construído por vários artistas na gestão passada. A mim soou muito mais como provocação e agressão do que qualquer outra coisa. Na prática, depois da polêmica, da ação na justiça, da convocação do Conselho Municipal, São Paulo continuou com as mesmas pichações, ou seja, pouco foi feito em relação à limpeza da cidade. A polêmica serviu apenas de pretexto para aprovar uma legislação municipal que endurece o jogo com os praticantes deste tipo de “arte”. Na verdade, “Cidade Linda” não passa de estratégia de marketing. Mais uma vez é o Juão Doria repetindo a receita tucana para a Capital. Quem esquece o Cidade Limpa?

O prefeito tem adotado um “tom otimista” ao falar de sua administração quando, na realidade, suas ações têm se mostrado paliativas. Tanto é verdade que andando pela cidade é mais comum encontrar mato crescendo nos jardins, praças e parques, lixo entulhado pelas calçadas e em terrenos baldios, buracos pelas avenidas e obras paralisadas de hospitais e escolas do que realizações da prefeitura. Ou seja, estão realizando mais anúncios de intenções do que efetivamente executando obras de melhorias pelos bairros. Ainda nessa mesma linha, que mostra a discrepância entre o que o prefeito diz e o que o prefeito faz, há o caso das pessoas em situação de rua, quando a prefeitura ordenou – e depois voltou atrás – que funcionários retirassem seus pertences. O que se espera de um governo municipal é que ele tenha sensibilidade para lidar com uma realidade concreta. E o prefeito Juão Doria tem dado demonstrações recorrentes de que não tem essa habilidade. Talvez, o presidente da república que habita nele não tenha que lidar com essa realidade no futuro. Por ora, na cadeira de prefeito, tomara que ele venha a fazer mais do que as promessas. Como já disse em outro artigo, às vezes tenho a sensação de que o prefeito confunde os papéis, uma vez que almeja saltar da cadeira de alcaide para a rampa do palácio presidencial num clique. Por enquanto, ele não fez absolutamente nada que o gabarite. Pode se dizer com toda certeza que São Paulo elegeu mais um poste. O município tem o dever de cuidar das pessoas, principalmente daquelas em situação de maior vulnerabilidade social.

Na mesma linha, há ainda o caso da Cracolândia, que poderia ter tido outro começo não fosse a pressa de Juão. Para mim, que sou paulistano, que tenho memória, que acompanho a vida política da minha cidade, leio os jornais, vejo o noticiário, percebo que Juão repetiu desastradamente a mesma tragédia protagonizada por um de seus antecessores o Gilberto Kassab. Daí você tem a certeza de que o caderno do jornal que ele mais lê é o econômico. Decretou o fim da Cracolândia como quem apagou o grafite, uma demão de tinta cinza e deu. Tratou a dependência química com ações policiais, demonstrando mais uma vez não ter a menor sensibilidade humana. Cabe denunciar estes abusos. Como se não bastasse, no dia seguinte anunciou no mesmo lugar um empreendimento imobiliário. O prefeito empresário enxerga números, planilhas e oportunidades de negócios. Uma cidade para as pessoas deve ser mais humana, mais inclusiva, mais democrática e oferecer mais participação. Talvez sejam essas as diferenças a que me referi mais acima quando iniciei este texto, e que a meu ver devem ser cada vez mais explicitadas, diferenciando o projeto neoliberal em curso e o da sustentabilidade que defendo.

O truque usado pelo gestor é antigo: consiste em vender “austeridade” em ano que antecede às eleições, para entregar em realizações em ano eleitoral.

Notícias