Juão Youtuber

22/junho/2017 - 4:16 pm

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Marcelo tem 48, é ativista político, republicano, democrata e progressista, estudou sociologia e ciência política, na Escola de Sociologia e Política de São Paulo e trabalha com estudos de opinião pública e comunicação política. twitter @oceanoazul

A Era do influenciador digital no cargo de prefeito.

A cada época surge uma nova tecnologia de comunicação capaz de revolucionar as relações entre candidatos e eleitores, governantes e cidadãos. Roosevelt soube como ninguém usar o rádio para entrar nos lares americanos. Kennedy por sua vez usou com maestria a televisão e explorou o glamour das imagens para conquistar corações e mentes da América. Na Era da pós-verdade, Trump tem usado com muita desenvoltura o Twitter para contar a sua versão da história. Em São Paulo, o prefeito paulistano, é “expert” em usar a tecnologia para promover suas façanhas à frente da administração da cidade.

 

 

Juão tem se mostrado um hábil “influenciador”.

Um youtuber diz o que bem entende, da forma que bem quer, ainda que nem sempre a notícia corresponda aos fatos. O prefeito demonstra assim que seu objetivo primeiro é “vender” no menor tempo possível a imagem de que é um “gestor” de sucesso e faz uma administração “eficiente”, atual e relevante. Próprio de um Youtuber. Com qual intenção? A de governar ou de se candidatar? O lado bom de tudo isso é que a nova tecnologia permite confrontar a verdade. Assim, vai se verificando que, entre a promessa feita e os acontecimentos, existe uma enorme distância, como os fatos demonstraram. No vídeo, o Youtuber, anunciou uma parceria inédita entre a iniciativa privada e o poder público, milhões de doses de medicamentos sendo doadas ao município, onde o maior beneficiado é a população.

“Vamos disponibilizar por dois meses, numa ação emergencial, 381 milhões de doses de medicamentos, representando um preço de fábrica de R$ 120 milhões”, disse Dória. (O Globo 08/02/17)

“Estamos doando produtos que têm de seis meses a um ano e estamos doando produtos com mais de um ano de validade. Isso vai depender de cada empresa. Tem produtos inclusive que o prazo máximo dele é 12 meses. Então, tem que ficar bem claro que não é assim: ‘ ah, a indústria, já que vai destruir, é melhor doar. Não é bem assim a questão. É um esforço da indústria. Um esforço que nunca foi feito no passado. Nunca foi feito chamamento para a indústria para participar desse tipo de esforço”, disse Nelson Mussolini, do Sindusfarma. (O Globo 08/02/17) 

O modo como foram feitos os anúncios, fez o prefeito parecer um político inovador e os laboratórios farmacêuticos altruístas, num momento em que a Lava Jato escancara a crueza da velha política e o tipo de relação que empresas e governantes de plantão estabelecem. Pois bem, meses depois deste anúncio, o tal “custo zero”, não passou de peça de ficção para desviar a atenção do cidadão desavisado. A “doação”, que deveria ser benefício para população, virou beneficio para a indústria farmacêutica, como noticiou a rádio CBN.

Este sim, o verdadeiro o fato!

“Em troca das doações, as empresas tiveram quase R$ 66 milhões em isenção de ICMS e ainda se livraram dos custos do descarte dos produtos. Os remédios começaram a ser doados em fevereiro, quando doze fabricantes entregaram 165 tipos que custariam R$ 35 milhões se comprados pela Prefeitura. Mas a ação teve recompensas: após um acordo entre as gestões Doria e Alckmin, as empresas ganharam isenção no ICMS por três meses. Nesse período, deixaram de pagar R$ 66 milhões em impostos. E os benefícios não terminam aí: o custo pelo descarte de medicamentos foi transferido das empresas para a prefeitura”. (Rádio CBN 07/06/17)

O que o Youtuber chamou de “custo zero” para prefeitura custou R$ 66 milhões em isenções de impostos estaduais. O que o prefeito anunciou como “doação” devemos tratar como incentivo financeiro a um setor considerado de ponta. Precisava? E o que é pior: no momento em que a economia passa por sua pior crise desde o Plano Real. Milhões de brasileiros não têm acesso a medicamentos devido ao alto custo quando comparado ao seu poder de compra. Este tipo de escolha “aleatória”, que beneficia alguns segmentos em detrimento de outros, resulta em distorções, e o reflexo pode ser percebido na incapacidade do Estado de cumprir seus compromissos rotineiros e manter os investimentos que beneficiam o cidadão. Neste caso, entre beneficiar o cidadão e a indústria, Doria preferiu o segundo.

“Os fabricantes não podem vender remédios com data de validade inferior a doze meses para farmácias e hospitais privados. Mas, pelo acordo com a prefeitura, eles podem entregar esses medicamentos nas unidades públicas. Isso porque o edital das doações não faz essa exigência, apenas pede que tenham data de validade preferencialmente superior a seis meses. Na mesma publicação no Diário Oficial, vem determinada a compra de remédios somente com garantia de pelo menos um ano. Quatro meses depois das doações, há remédios acumulados nas unidades básicas de saúde com vencimento para agosto, julho, ou mesmo para junho. Depois do vencimento, os laboratórios não garantem mais a capacidade de eficácia e segurança, já que os testes só são feitos levando em consideração a vida útil do produto”. (Rádio CBN 07/06/17)

“A questão de doação é um perigo, porque às vezes você tá achando que tá recebendo uma doação, que ela tá sendo benéfica, por outro lado você vai ter que pagar para destinar depois. E isso acaba gerando um custo – então a coisa acaba sendo pior do que antes”, afirma o coordenador do Conselho Regional de Farmácia, Raphael Figueiredo. (Rádio CBN 07/06/17)

O que se verifica é que a prefeitura não ganhou medicamentos, comprou. Portanto, se existe contrapartida não é doação. Simples assim. Mas os problemas decorrentes desta ação não param por ai, uma vez que os medicamentos “ofertados” estavam com os dias contados, ou seja, com o prazo de validade vencendo, logo, teriam que ser descartados. Sendo assim, parece que a prefeitura “comprou placebo”, disponibilizando nas farmácias das unidades básicas de saúde do município remédios que não têm mais “efeito” prático no tratamento clínico, portanto, que não podem mais ser distribuídos à população, jogando no lixo dinheiro público! O problema é que para descartar este tipo de produto, altamente tóxico, há um custo de operação. Custo que, até fevereiro, era dos laboratórios, e agora transferidos à municipalidade, que terá que arcar com mais prejuízo. Ou seja, mais recursos do contribuinte para o lixo.

Essa é a “fantasia” que se criou da gestão eficiente na cidade!

Em seis meses usando o Facebook, o prefeito Youtuber, fez mais pela cidade de São Paulo que o ex-presidente Juscelino Kubitchek fez pelo Brasil em seu Plano de Metas “50 anos em 5”. O talento para ficção é inegável, mas já deu para população perceber que quando o assunto é governar a coisa muda de figura. Particularmente, entendo “doação” como algo que não exige contrapartida do lado de quem recebe. Mas, na ficção, a prefeitura “finge” que não comprou, e a indústria que não vendeu. O intuito é um só: caber na manchete que o Youtuber inventou para a população nas redes sociais.

A palavra “doação” rende mais visualizações e curtidas.

Youtuber vive disso!

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