“New Washing” e a sistemática de enganar o povo.

28/agosto/2017 - 1:22 am

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Allen Ferraudo tem 34 anos, é mestre em Economia & Direito, com foco em inovação, pela Universidade de Bolonha na Itália onde obteve, também, a graduação em Relações Internacionais. Desde 2015 vem se inserindo na política com o intuito de repensar as instituições públicas sob a ótica dos ativos intangíveis e do patrimônio imaterial. É também empreendedor e possui gosto pela música, artes cênicas, cinema e fotografia.

O termo “New Washing”, ou “pintando de NOVO”, é uma tendência nos partidos envolvidos em corrupção, que se travestem de um discurso de “NOVO PARTIDO”, “NOVA POLÍTICA” ou “NÃO POLÍTICO”. O termo, claro, é uma adaptação feita por quem vos escreve de outro termo já conhecido, “Green Washing”. Trata-se de uma estratégia de marketing, onde empresas prometem e divulgam ao público em geral que seus produtos e serviços são ecológicos e sustentáveis. Aplicam uma maquiagem verde e aparentemente próxima à natureza, que foca mais no discurso do que na prática, induzindo consumidores e outras empresas a adquirirem produtos teoricamente mais responsáveis. O que está por trás disso, no entanto, é a apropriação de um marketing, cuja intenção é não perder mercado, mesmo que isso leve ao consumo de produtos e serviços que degradam a natureza ou poluem o meio ambiente.

Nesta mesma linha de raciocínio, é fácil notar a estratégia do “New Washing” na política brasileira, basta modificar a comunicação para buscar um novo público alvo, escolhendo uma imagem e um branding visual diferenciado e mais jovem, com o intuito de esconder seu passado e, por fim, reestruturar o discurso político, geralmente apelando para bandeiras populistas de caráter emocional, para não ter de mudar a estrutura política vigente. O “New Washing”, tal como o Green Washing, é uma estratégia, só que diferente, pois busca o descolamento e a fuga das responsabilidades, construída para ludibriar o eleitor, e que procura dar uma repaginada no marketing político de agentes e de instituições partidárias. Veja bem, é como vender um carro usado: primeiro, lava-se o automóvel, em seguida, usa-se o “pretinho” sobre as rodas e, por fim, coloca-se o anúncio como “carro seminovo bem cuidado”, mas em todos os momentos a ideia é não revelar os reais problemas de elétrica ou mecânica que o carro já teve ou tem. O comprador, que não possui informações sobre o carro, não quer comprar gato por lebre e, quando é enganado, alimenta a sensação de injustiça e de completa impotência quanto ao ocorrido. O mesmo acontece quando indivíduos que se dizem políticos e instituições que se dizem partidos pró-democracia tentam “lavar” suas imagens, propagandeando que são a nova solução para os problemas que eles mesmos criaram num passado recente e já esquecido.

Há vários exemplos de partidos que aplicaram e aplicam o “New Washing”: o PCB se tornou PPS em 1992; o PTR que, em 1993 modificou a sigla para PP, hoje é o novo Progressistas; o PSN tornou-se PHS em 2000; mas a mudança mais significativa aconteceu em 2007, quando o conservador PFL modificou seu nome para Democratas. Vemos em 2017 uma forte tendência de New Washing, basta ver que o PT do B quer se tornar Avante, o PSL busca o Livres, o PEN vai de Patriotas e o PTN já é o novo Podemos. Como visto, todos com termos novos para executar a velha política do “troca a troca” de cargos e cadeiras. Mas não há novidade nisso.  Esta política que distorce sua imagem para realizar o que sempre fez deve ser combatida. Percebe-se que a política do marketing é a única estratégia de muitos grupos políticos que detêm o poder no congresso, nas câmaras e assembleias nesse Brasil.

A melhor forma para não cairmos numa armadilha é a circulação da informação e a revelação das reais intenções desses agentes e instituições políticas que aplicam o “New Washing”. É fato que a desinformação será a grande arma nas eleições de 2018. Personagens oportunistas como João Doria vão investir nas imagens e nos discursos para falsear aquilo que se vê, se mede e se constata em nossa realidade. Faltam formadores e pessoas que percebam a real ameaça do que está por trás do velho discurso de renovação, isto é, falta mostrar um plano de ação e de estratégia em prol da sociedade. Posso dizer que o “New Washing” é o agravamento da crise, é o resultado da incapacidade do sistema político de gerar soluções e de se autorregenerar. É, por fim, a continuação da mesma elite irresponsável que nada propõe, e que impõe à Nação brasileira altíssimos custos de transação servindo como freio ao desenvolvimento sustentável do Brasil.

Precisamos ser céticos! A desconfiança no discurso do novo é uma forma de analisar criticamente o que realmente de “novo” está sendo feito. Faz-se necessária a substituição dessa cancerígena elite política por uma que realmente conceda e propicie um futuro aos brasileiros, mas não será nada fácil, dada a astúcia dos agentes que estão por trás disso tudo. Basta ver que Dória Jr mostra que nada tem de novo, pois não tem um programa, não colhe resultados e não tem a compostura de um estadista, é um ser mais do mesmo. O primeiro passo para a sociedade brasileira sair do buraco não é somente colecionar informações, mas saber filtrá-las para que se possa construir uma verdadeira crítica, robusta e embasada, sobre qualquer posição que nos venha a ser apresentada como “nova”. Precisamos saber cobrar os resultados, e isso não significa cobrar somente condições puramente econômicas, mas cobrar um projeto exequível de Brasil, viável a todas as camadas da sociedade e da nossa fauna e flora brasileira. O único plano que se vê hoje nesta terra amargurada é a sobrevida de políticos e marajás oportunistas.

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