Nossos furacões não são como os outros. Só devastam os cofres públicos

11/setembro/2017 - 6:02 pm

Publicado por

Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Nossos furacões não são como os outros. Enquanto provocam destruição pelo mundo, aqui, fazem só um ventinho. No fim, tudo permanece do mesmo jeito, menos os cofres públicos.

O furacão Irma se formou lá pelo fim de agosto, mas começou a virar notícia justamente no nosso feriado mais pungente, o dia da Independência. Três dias antes, o furacão Janot já havia deixado um rastro de destruição na Operação Lava Jato, enquanto o facínora-mor fazia pose na China. Mas os nossos furacões não são como os outros, eles fazem um ventinho por cima, sacodem um pouco, e mesmo assim tudo permanece como está. O Irma, que saíra da costa africana, cortava o Atlântico em direção ao Caribe.

O Furacão Geddel atingiu o Brasil 58 anos atrás. Ninguém viu. Filho de político, baiano, estava talhado para seguir os rumos do pai. Os estragos vieram cedo, quando saiu devastando o Banco do Estado da Bahia, aos 22 anos. De lá para cá, muitos e muitos danos foram causados pelo furacão Geddel. Mas nossos furacões não são como os outros, eles não espalham, arremessam, ao contrário, acumulam, amealham. Como vimos nas caixas e malas no olho da tempestade. O Irma ainda permanecia sobre o oceano. Sua violência era só hipótese.

Já o furacão Joesley devastou meio planalto central uns meses atrás, destruiu reputações já destruídas, tocou fogo na brasa, fez e aconteceu. E tudo permaneceu do jeito que estava. Nesse ponto ele é igualzinho aos outros nossos. O que surpreende é a sua capacidade reversa, ressurgindo do nada, como que para desfazer ou tumultuar o que já havia feito. Alguns chamam de furacão ébrio. Mas que pode pender de acordo com as conveniências. E está em plena atividade.

O Irma só veio a causar danos no dia 8 de setembro. No mesmo dia, o México foi sacudido por um terremoto de mais de 8 pontos na escala Richter. Por aqui, um tremorzinho foi sentido pelos maiores caciques do PMDB, denunciados pelo Janot, já classificado como uma garoa categoria 3, ao STF. No máximo, algumas mãos serão molhadas.

A América treme, voa, é arrastada e arrasada. O Brasil implode. É a nação com a mais aguda crise de poder do mundo. Mesmo as que estão em conflito aberto e sangrento, não parecem ter um vácuo de poder tão acentuado. Vivemos em um país sem poderes, sem credibilidade, sem nomes. O que vemos é um bando de quadrilheiros de segunda linha, arrancando o máximo que podem de nossa nação derruída.

Nossos furacões e terremotos só devastam instituições e finanças públicas. Nem reputações destroem mais. A Ética foi embora faz tempo, seguindo a onda migratória que precede ou sucede uma catástrofe. Os bandidos decidiram ficar, e vão ficar.

Tomava café em uma padaria quando, ao ver a repetição das imagens de Loures fugindo com a mala de Temer, um homem fala ao colega de balcão: “eu fiquei chocado com essa mala…”, o outro reponde: “e agora ficamos chocados com as malas do Geddel…”. Eu me meti na conversa: “e ainda vamos nos chocar mais ainda, com o agravante de que continuaremos aqui, tomando café…”.

Os dois assentiram com a cabeça, mas não fizeram menção de olhar para trás para ver se um sopro mais forte de vento havia de alguma forma alterado nossa rotina. Não, nossas tragédias são camufladas. Matam muito mais do que terremotos e furacões, mas matam aos poucos, imperceptíveis aos olhos que não querem ver. Furacões e terremotos deixaram no Caribe, México e Estados Unidos, cidades aos pedaços e dezenas de mortos. Aqui, acompanhamos tudo de longe. Já estamos acostumados. Os genocidas engravatados de Brasília agradecem.

Notícias