O tucano de suéter

21/junho/2017 - 8:14 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

O mais recente trabalho do dr. Oshomi Sugaru Tudu foi publicado na conceituada revista Fature, e foi resultado de anos de pesquisa nas selvas e cidades das Américas Central e do Sul. O cientista e sua equipe desvendaram mistérios sobre os hábitos dos tucanos, o que rendeu ainda mais prestígio ao dr. Sugaru, já reverenciado por suas pesquisas sobre novas espécies brasileiras, como o urubu desmascarado, ave de rapina do Planalto Central, e o periquito chupador, mais evidente no Rio de Janeiro.
A primeira pergunta que fiz foi como ele preferia ser chamado. Ele foi enfático: Sugaru.
Sugaru é uma lenda. Para nós, meros mortais, incapazes de alçar voos para fora de nossa caixinha, este nome não significa nada. Mas, no meio da Ornitologia, ele abre portas como Moisés – diz a lenda – abriu o Mar Vermelho, como abriram-se as rodas de conversa sobre ararinhas azuis e pica-paus amarelos para que o grande mestre proferisse suas palavras. É claro que se trata de uma reunião atípica. Tais encontros só foram possíveis graças à realização do I Congresso de Ornitologia Tropical, sediado em São Paulo. O Elo aproveitou o evento para falar com o eminente ornitólogo, que nos concedeu alguns minutos de seu tempo.

Elo – Esse mapeamento rigoroso sobre os tucanos foi muito difícil?
Sugaru – Sim. Acreditava-se que os tucanos eram aves metódicas, com hábitos seculares e rotinas entediantes. Nós passamos, ao todo, quase dois anos acampados nos habitats das várias espécies, e descobrimos que os tucanos não são exatamente como nós imaginávamos.

Elo – Como assim?
Sugaru – O tucano é, por natureza, um glutão. É uma lenda a conversa de que os tucanos são monogâmicos. E eu não estou misturando os assuntos. Vou explicar: por uma boa comida, um tucano acasala com qualquer um.
Outra curiosidade: o tucano é uma ave que gosta de empoleirar-se, aprecia lugares altos, geralmente galhos, mas, nas espécies urbanas, na falta de galhos, os tucanos preferem os muros. Como já disse, é um glutão. Quando o muro fica entre dois terrenos com comida farta, o tucano fica muito confuso, por vezes provocando inanição e até a morte do indivíduo.

Elo – Outro tema abordado na sua pesquisa é a relação entre os tucanos e outras aves.
Sugaru – Exato. E esta é uma descoberta fantástica. Chama-se mutualismo. Há espécies que caçam e colhem e destinam parte dessa comida para os tucanos. Um grande exemplo é o joão-de-barro. O joão-de-barro é grande amigo dos tucanos. Ele dá boa parte de sua reserva para os tucanos e, em troca, recebe o elemento fundamental para a construção de seus ninhos, justamente o resultado da comilança: as fezes do tucano. Sem elas, as casas do joão-de-barro seriam mais frágeis e mais sensíveis às intempéries.

Elo – É um grande exemplo de cooperação. Mas parece que a relação entre os próprios indivíduos da espécie não é bem assim.
Sugaru – É verdade. O tucano não é solidário, especialmente nas crises. Durante o período de fartura, ele até é capaz de dividir a comida com os indivíduos do mesmo bando, mas em um período de seca, por exemplo, toda comida que ele consegue só ele come, e isso pode gerar conflitos capazes, inclusive, de desestabilizar o bando, provocando, em certos casos, a saída de elementos para outros grupos.

Elo – Outra revelação importante foi a confirmação de que os tucanos não migram.
Sugaru – Os tucanos são muito parecidos. Acreditava-se que eles viajavam por boa parte da América. Nossa pesquisa descobriu que não é assim. O tucano é caseiro. Cada lugar tem sua espécie. No máximo, o tucano gosta de sair de um galho para outro mais alto.

Elo – Por fim, eu gostaria que o senhor falasse sobre duas características bem peculiares dos tucanos, a plumagem e o bico, o que fez sua equipe catalogar mais uma espécie, não foi isso?
Sugaru – Exatamente. O Tucano gosta de luz. Quanto mais luz, mais o tucano se exibe. É de sua natureza. Depois de meses de observação, identificamos uma espécie que, pela disposição de sua coloração, batizamos de tucano de suéter. É uma espécie fabulosa. Ele se mistura aos outros e tenta ser diferente, fazer coisas e cultivar hábitos distintos, no entanto, quando o sol vai caindo e as sombras vão imperando, ele se revela igualzinho aos outros. Não é fácil identificá-lo. É também a espécie com o maior bico, talvez por isso seja também a mais canora. Canta tanto, que chega a provocar um certo constrangimento em outros elementos do bando.

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