O cheiro que vem de Brasília

3/julho/2017 - 10:47 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Vem vindo de Brasília um cheiro que é muito comum aos brasileiros e que faz parte de nosso imaginário. E não se trata daquele odor nauseabundo que exalam os grandes lixões ou os rios de esgoto a céu aberto. Não que tal cheiro não esteja presente nas cercanias da capital contaminando o restante do país, mas não é o caso. O aroma a que me refiro é aquele que desejávamos estar em fase de extinção nos bastidores do poder desta pobre nação: o cheiro de pizza.

Às vésperas do recesso jurídico/parlamentar tradicional do mês de julho (o parlamentar começa com as festas juninas), Marco Aurélio Mello e Edson Fachin, ambos juízes da mais alta corte da República, tomaram decisões que têm o sabor amargo de uma facada pelas costas. O primeiro liberou Aécio Neves para voltar ao cargo de senador, mesmo com os áudios amplamente divulgados de seu pedido inebriado de R$ 2 milhões para o empresário das carnes, Joesley Batista. O segundo, para surpresa geral, mandou soltar o ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, apesar das imagens correntes dele e da mala com R$ 500 mil entrando num táxi em São Paulo, e que tinha como destinatário nada menos que o presidente Michel Temer. As duas medidas foram tomadas na sexta, 30 de junho, último dia de trabalho antes do recesso, talvez para que os ministros pudessem viajar com as consciências tranquilas e, com certeza, para onde vão ou foram, não terão o povinho falando baboseiras em vossos justos ouvidos. Ah, e um mês é tempo suficiente para esquecermos esses fatos.

Jamais saberemos os detalhes que culminaram em tais decisões, tão caras ao processo de higienização da política nacional. Mesmo que um dia alguma versão dos fatos venha a público, já saberemos que se trata apenas daquilo que podemos conhecer. Não será a verdade. Aliás, a verdade, em Brasília, é apenas uma palavra anódina sem um significado concreto. Mera abstração.

O TSE já nos indicava tal caminho, ao salvar Temer da cassação por fraude eleitoral. A mesma acusação que – perdoem-me o chute – não livraria Dilma, que foi defenestrada do Planalto por muito menos. O mesmo indicativo está vívido no encaminhamento do pedido de acusação de Temer diretamente à Câmara e não ao colegiado da corte suprema, exatamente como desejava a defesa do presidente e como atendeu, solícito, o ministro Fachin.

A última notícia de nossa República Abananada é a prisão de Geddel Vieira Lima, ex-ministro de Temer, pela Polícia Federal. A acusação é que ele e o deputado preso, Eduardo Cunha, ganharam farta propina para ajudar na liberação de empréstimos no valor de R$ 1,2 bilhão da caixa Econômica Federal para algumas empresas. Entre 2011 e 2013, Geddel foi vice-presidente de pessoas jurídicas do banco.

Diante de quadro mais do que degradante, deste lixo que espalha seu chorume pelas altas instâncias de todos os poderes, resta-me pedir encarecidamente à Polícia Federal e ao Ministério Público que parem de gastar nosso dinheiro investigando e prendendo políticos que jamais cumprirão penas por seus crimes. As cartas de Brasília estão todas marcadas. Os roteiros vão sendo escritos com o andar dos fatos, mas o final todos já sabemos: os que experimentarão a cadeia são dispensáveis, coadjuvantes. Já vimos esse filme em outros escândalos, como o mensalão. No fim, apenas a alta cúpula do PT e alguns políticos e empresários meia-boca viram o sol nascer quadrado, como se dizia antigamente.

Teremos agora trinta dias de marasmo. Por mais que algo aconteça, algum fato novo surja, não estarão por lá os magistrados e os políticos que poderiam dar andamento a qualquer processo minimamente positivo. É claro que nesse ínterim, algum juiz comprometido com o bem-estar do país mandará soltar Geddel e mais alguém de troco. Não duvido. Agosto e seu mau agouro vêm aí.

Tenho ouvido opiniões de que a campanha pelas eleições diretas no fim da ditadura militar só deu certo porque o país inteiro queria a mesma coisa, tinha um só objetivo. Qual é a porcentagem da população brasileira que acha uma delícia ser governada por um bando de ladrões? Será que é isso mesmo? O povo não está nas ruas porque aceita a pilhagem dos cofres nacionais? Parece que é a mais pura realidade: nossos políticos são exemplos de sucesso, imagens de poder e dinheiro, sonhos recorrentes do brasileiro.

Assim, a República Abananada permanece em seu conforto, emitindo opiniões pelas redes sociais, discutindo pelos botecos e em meias conversas de elevador. Não está revoltada, indignada ou, simplesmente, triste. Parece, como sempre, meio insatisfeita, mas totalmente conformada. Encontra-se à mesa, garfo e faca nas mãos, aguardando a pizza tamanho famiglia, que encherá de azeite e ketchup, para disfarçar o odor acre da podridão.

P.s.: Citei o PT apenas por constatar que os petistas amargaram a cadeia por serem neófitos, gente recém-chegada à suruba política do Planalto Central. Acho que eles, os petistas, poderiam ter a companhia de alguém do PSDB, por exemplo. Assim, poderiam descobrir onde foi que erraram.

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