O dia em que conheci Jader Barbalho

6/outubro/2017 - 6:48 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Não, não pensem que conheci o emérito senador pelos corredores de Brasília, ou em algum comício postulando mais um cargo na vida pública, ou ainda em uma coletiva em que tentava se defender de uma ou de várias acusações por improbidade administrativa ou formação de quadrilha. Não. Conheci “Il Capo” da famiglia Barbalho numa calçada de Belém do Pará, cerca de 40 anos atrás.

Eu era uma criança, um menino de menos de 9 anos, apreensivo, pois pela primeira vez iria participar de uma festa junina realmente organizada. Não era aquela coisa de criancinha sendo puxada pelas mãos da educadora, não, eu tinha até par. E tinha uma responsabilidade tremenda: na véspera, havia recebido a incumbência de vender 20 votos para a Miss Caipira.

Quando cheguei com os votos em casa, meu avô, que vivia com a aposentadoria de um salário-mínimo, quase teve um piripaque, pois não podia pagá-los. Eu, que me prontifiquei em classe a vender os papeizinhos verdes apenas para aparecer ou, talvez, provar que eu, o caçula da turma, podia fazer alguma coisa, cheguei a me arrepender, mas meu avô logo me consolou e sugeriu que saíssemos no dia seguinte, um sábado, para oferecer aos vizinhos.

Eu morava com meus avós em uma rua limítrofe, entre a cidade desenvolvida e a periferia, numa quadra que tinha desde casebres miseráveis até casas de classe média média. A nossa era térrea, antiga e muito simples, erigida no barro e não no tijolo, mas era pintada e tinha piso, mesmo que em algumas partes fosse apenas o cimento tingido, o que me deixava orgulhoso, já que tinha amiguinhos cujas casas eram tão somente um punhado de cômodos em terra batida.

Algumas casas à frente morava o nosso vizinho mais ilustre, Hermínio Calvinho, vereador. Para mim, inocente de tudo, era a casa mais bonita da rua, onde nunca entrei, o que me trazia um ar de mistério, de desconhecido, principalmente, porque tinha dois andares. Quando saímos, eu e meu avô, com os votos à mão, ainda cedo, logo depois das oito da manhã, ao mesmo tempo estacionava um Corcel amarelo na residência do político.

De um carro igual a este saíram meu vizinho vereador e Jader Barbalho, “a esperança do Pará”

Do automóvel, um sucesso na época, desceram o vereador e um jovem rapaz. Meu avô me puxou pelas mãos e disse:

– Vamos, vamos vender nossos primeiros votos.

Eu saí quase arrastado por aquele senhor resoluto. Logo, Hermínio Calvinho percebeu que a conversa era com ele. E, como todo político, foi caminhando em nossa direção, abrindo os braços para cumprimentar o eleitor em potencial. Depois das formalidades triviais, o vereador chamou o jovem para nos conhecer. O diálogo a seguir, por mais que a memória nos traia em uma ou outra palavra, mantém o sentido do que se passou:

– Seu Arthur, eu queria lhe apresentar uma jovem esperança da política. Esse é Jader Barbalho, foi líder estudantil, hoje é deputado e é um nome que vai mudar o Pará. Ele ainda vai ser governador.

Meu avô, um pouco incomodado com a contra venda, cumprimentou a promessa e tentou encaminhar o negócio dos votos:

– Sabe o que é, Calvinho, é que meu neto (neste momento mereci um afago do político) trouxe da escola esses votos para Miss Caipira e a gente está saindo para vender. O senhor não que ficar com um?

Sem pestanejar, a esperança do Pará, aquele jovem, puxou a carteira do bolso:

– Ora, eu quero. – Eu fiquei muito feliz com o sucesso da empreitada, peguei um voto e entreguei para ele.

– É cinco cruzeiros (não lembro o valor exato, mas é o de menos).

– Não. Eu quero todos!

Eu fiquei pasmo. Não tinha ideia de que alguém pudesse comprar todos os votos de uma vez. Não cabia na minha realidade de contar moedas, de sonhar com uma bicicleta ou uma tevê em cores. O susto ficou evidente. Meu avô, calmamente, pegou os votos de minha mão e entregou-os ao sonho dourado de todos os eleitores, que, gentilmente, recusou, enquanto entregava a nota de cem:

– Não precisa. Pode ficar com eles. – Eu, saindo de meu transe, voltei à conversa:

– Não. O senhor comprou. É seu!

Ele sorriu com vontade, abaixou-se e falou como se contasse um segredo:

– Pode ficar, assim tu vendes de novo.

Eu estava assustado. Na minha consciência infantil aquilo era extremamente errado e eu insisti para que ele ficasse com os votos. Mas, ele não quis levá-los:

Jader tornou-se governador em 1983, alguns anos depois que eu o conheci

– Não, garoto. Tu vendes de novo e entrega para a professora o dobro. Vais ganhar um cartaz…! – Disse o protótipo de coronel, já levemente irritado.

Meu avô, percebendo meu desconforto, mais uma vez interveio. Pegou os votos e agradeceu. Nos despedimos e seguimos nosso caminho. Na primeira lixeira que encontramos, ele rasgou os votos e os descartou:

– Pronto, tudo resolvido. Já temos o dinheiro e não temos os votos.

– Mas, vô, ele comprou, tinha que ficar com ele. A gente não podia vender de novo…

– Eu sei, filho, ele só queria ajudar.

– Mas tá errado!

Eu sei, mas ele é político…

Demorei ainda alguns anos para entender aquela lição.

Jader Barbalho nunca entendeu.

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