O Naufrágio

29/novembro/2017 - 5:36 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Doria não nasceu, foi lançado. Era a década de 50 do século passado. O mundo vinha tentando se recuperar dos horrores da II Guerra Mundial, cidades inteiras estavam sendo reconstruídas, atrocidades cometidas durante o conflito ainda eram descobertas e investigadas. As bombas e as mortes eram traumas redivivos nas memórias individuais e coletivas, e os campos de concentração nazistas traziam à tona o que de mais odioso o ser humano é capaz de fazer. A grande verdade é que a primeira metade do século XX expôs o espelho para que a humanidade pudesse vislumbrar seus grandes fracassos e suas maiores frustrações. Ali, na lâmina reluzente refletiva, estava a face do homem enquanto espécie. E não era bom de se ver.

Mas, nada melhor para aplacar grandes fracassos do que grandes sucessos. Por isso, a segunda metade do século precisava ser grandiosa, magnânima e surpreendente. O mundo estava dividido, é verdade. Dois campos antagônicos de pensamento lotearam o planeta. De um lado, o gigante capitalista, motor da economia mundial, os Estados Unidos; do outro, a potência socialista, mãe maior do Estado forte, a União Soviética. Mesmo assim, ou talvez por isso, vivemos grandes conquistas. Chegamos à Lua, deciframos o DNA e desbravamos a tecnologia.

Doria nasceu, perdão, foi lançado com a premissa de ser grande, marcar época. Doria era o novo, o diferente. Impossível não notar seu luxo, seu estilo, a tendência à extravagância, a imponência. Doria era único.

Doria portava em si também uma grande carga de arrogância. Foi criado não para ser o maior, mas para ser o mais luxuoso e sedutor. Mas nem tudo que encanta traz consigo a segurança necessária para viagens extensas e passos mais largos que o habitual. Sua aparência suntuosa e seus adornos e detalhes eram a casca que encobria problemas primários na forma como fora concebido.

Seu projeto foi desenvolvido e executado em Gênova, na Itália, que acabara de sair derrotada da guerra, carregando as máculas de um regime fascista, liderado por Mussolini, aliado de Hitler, o grande sanguinário. O SS Andrea Doria era uma espécie de renascimento da indústria naval italiana, depois de anos construindo máquinas de combate.

SS Andrea Doria: luxo, imponência e arrogância a 72 metros no fundo do oceano

O transatlântico de 212 metros de comprimento e capacidade para mais de 1200 passageiros tinha um grave problema de equilíbrio quando os tanques de combustível estavam quase vazios. Assim, quando chegava à costa dos Estados Unidos, o SS Andrea Doria foi abalroado por um navio sueco reforçado para navegar em águas congeladas e naufragou dez horas depois, matando 51 pessoas. Era 25 de julho de 1956, apenas cinco anos depois de seu lançamento.

O nosso Doria, o prefeito, naufragou com menos de um ano de uso.

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