O silêncio que vem das ruas: a deseducação é a alma do negócio

27/julho/2017 - 5:55 am

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

O mundo inteiro anda se perguntando por que o brasileiro permanece passivo diante das mais escabrosas revelações sobre os bastidores contaminados da política. Os exemplos da perniciosa relação entre empresários e nomes carimbados do poder estão em todas as mídias, multiplicando-se dia após dia num redemoinho que parece não ter fim e que vai minando ainda mais a dignidade da República.

O ir e vir de notícias bombásticas, que já assorearam as reputações de Lula, Aécio Neves e do presidente Michel Temer, entre outros, muitos outros, não é suficiente para levar a população às ruas para pedir um pouco mais de respeito àquele que deveria ser o eterno objeto das ações institucionais: ela mesma, o povo.

Sarney, a eterna cara da política. Temer, a atual cara da política. A corrupção empoderada

Esta entidade, tão concreta e ao mesmo tempo tão etérea, que já foi aos milhões pedir eleições diretas, a deposição de Collor e de Dilma, dessa vez escolheu o conforto do sofá e das redes sociais para suas tímidas manifestações, deixando o país carente de uma solução e, pior, refém de uma classe mais afeita às práticas criminosas do que ao fazer político.

Explicar essa conformação – tão próxima da cumplicidade – não é tarefa fácil. A maioria dos que se arriscam a uma teoria aponta a polarização política como fator principal para tamanha complacência. Não tenho dúvida, mas vou além: o que nos levou a tal estado de disputa, leniência e apatia? A resposta alta e clara é Educação. Mais precisamente a falta dela. Para nossa classe política, Educação é item de terceira categoria. Povo deseducado é povo manipulado.

A agonia da ditadura militar e o desejo de liberdade uniram o país pelo voto direto

 

Diretas já!

No contexto histórico dos estertores da ditadura militar, o movimento por eleições diretas – lá pelos anos 80 do século passado – abraçava a todos, era um desejo majoritário. Dos grandes empresários que queriam uma economia mais aberta e globalizada e, portanto, mais lucro, aos menos favorecidos clamando por mais acesso à Cultura e liberdade, ou seja, foi um movimento fácil, o Brasil se uniu para voltar às urnas e escolher seu presidente. No entanto, os congressistas – muitos ainda vivos e “atuantes” – optaram pela eleição indireta e elevaram, num “golpe (como esta palavra é recorrente…) de sorte” José Sarney ao cargo máximo da nação. Se estamos onde estamos hoje, este fato é fundamental. Sarney é um daqueles velhos coronéis imortais. Ele perpetua-se no poder através de filhos, netos, parentes variados e aliados, enquanto seu patrimônio vai se avolumando em detrimento das necessidades básicas dos maranhenses, não por acaso o segundo estado com pior IDH do Brasil. O governo Sarney é o caldo primordial daquilo que se tornou o Brasil moderno.

 

Fora, Collor!

Fernando Collor de Mello nasceu na mídia, e se desenvolveu nela. Porte atlético, cara bonita, discurso inflamado, o então governador de Alagoas (só para constar, o pior IDH do Brasil) foi abraçado pela Rede Globo, que não queria Lula na presidência. O “caçador de marajás” ganhou apertado, em história que todos conhecemos.

O presidente fabricado pela Globo não deu conta do ego e da inflação, e ainda tentou criar um esquema paralelo de corrupção. Os estudantes, em luta, derrubaram Collor

Pode-se dizer que seu ego o tirou do poder. Além do exacerbado auto-amor e de medidas impopulares sem conseguir matar a inflação, Collor montou um esquema paralelo de corrupção àquele já existente, provocando a ira de colegas e comparsas. O movimento estudantil, que vinha organizado na luta por pautas como o passe livre e a meia-entrada, foi inflando à medida que os casos de corrupção iam sendo revelados. Nasciam os caras-pintadas, caía o presidente.

 

Fora, Dilma!

A classe média endividada e políticos investigados tiraram Dilma do Planalto

A primeira mulher presidente chegou ao cargo carregada pelos braços do antecessor, o candidato a santo, Lula. Sem o traquejo do jogo jogado no planalto central, aos poucos, Dilma foi perdendo a mão e o espaço. Seu pior defeito, depois do descalabro econômico, em parte herança da gestão anterior, foi não algemar a polícia federal e o Ministério Público, impedindo a sanha justiceira da operação Lava Jato.

A classe média, atingida pela crise econômica, e os velhos e novos larápios da política, temendo a desagradável experiência de ver o sol nascer quadrado, foram os protagonistas da vez. Ah, existiam uns movimentos e aqueles vinte centavos, mas a História há de se mostrar oportunista. Assim, interesses, dinheiro e escândalos de corrupção envolvendo grandes nomes do PT derrubaram a presidente.

 

Foram três momentos para registrar nos livros, quando o povo fez valer a sua voz.

Será?

Não. Foram manifestações protagonizadas por classes de gente educada, capaz de ler, compreender e formar opinião. A grande maioria da população não participou de tais movimentos. É aquela velha conhecida massa de manobra, a massa desinformada, ignorante, um pedaço do Brasil apenas lembrado nas eleições, lambendo as migalhas sobre a mesa e para quem a Educação faria uma enorme diferença. Nenhum dos governos brasileiros fez esforço real para unir as duas pontas desta equação.

O descaso com a educação nos transformou numa nação de corruptos, fascinados pelas benesses do poder

Assim, nossas pequenas revoluções são feitas por nichos da sociedade. Reduzidas parcelas educadas, informadas e unidas por interesses em comum.

O Brasil está calado hoje porque as classes educadas estão em lados opostos. Os informados da esquerda estão divididos entre os envergonhados com os rumos seguidos, os cegos crentes e os cúmplices, ou que queriam ser cúmplices. Os educados da direita parecem conformados, como se a velha ordem estivesse restabelecida.

São séculos de educação forjada nos gabinetes do poder, entregue em porções racionadas, apenas para manter as aparências. Este eterno descaso criou uma sociedade corrupta, apegada a hábitos questionáveis e que vê nos facínoras engravatados de Brasília exemplos de sucesso. A imensa massa deseducada poderia ser o fio da meada de nossa nação dividida.

Mas é importante lembrar que a polarização que interrompeu amores e desfez amizades só vale aqui, no campo dos mortais educados. Lá, no Olimpo envidraçado de Brasília são todos amigos e têm muitas coisas em comum, como não enxergar o povo e tentar escapar da cadeia. E, tudo indica, terão sucesso na empreitada.

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