O Sonegador Cívico

4/agosto/2017 - 4:35 pm

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

 

O Presidente Michel se deu bem. Mas não se deu bem sozinho.

Entre junho e julho, enquanto no Rio de Janeiro falta dinheiro para colocar gasolina em carro de polícia, hospitais privados que atendem ao SUS estão há 8 meses sem receber um centavo (1) e a UERJ ameaça fechar pela pura e simples falta de dinheiro, foram liberados R$ 2,34 bi (2) para nossos parlamentares irem comemorar junto às suas bases, o que será muito lembrado nos churrascos que se farão nas eleições do ano que vem.

O Presidente Michel também resolveu dar um pequeno desconto de R$ 5,4 bi nas dívidas tributárias dos empregadores rurais (3) e tudo caminha para que, conforme bela proposta do eminente deputado Newton Cardoso Júnior (que deve ao fisco R$ 51 milhões e uns quebrados), o enésimo Refis, com o qual a República esperava arrecadar R$ 13,3 bi, não vá dar nem em meio bilhão (4) – um prêmio, portanto, de quase R$ 13 bi para quem não paga imposto.

Tenho certeza de que o diligente Newtinho (5), filho de velho Newtão, legislou pensando no bem da Pátria. Afinal de contas, o que é não pagar um impostinho aqui e outro acolá?

Em São Paulo, se o nosso bom sonegador doar alguma coisa para nossa Prefeitura, tudo bem, pois ninguém é perfeito.

Quando questionamos judicialmente o fato de que alguns devedores de impostos estavam ajudando, com as suas desinteressadas doações, nosso querido Prefeito Doria a bombar no Face, a Municipalidade respondeu que isso não era proibido.

Logo, era legal ver essa rapaziada aparecendo “nas mídias sociais e na imprensa escrita e televisiva”, posando de empresas “cidadãs” que fazem caridade “em prol de toda a sociedade”. Os trechos entre as aspas não são meus; estão na defesa da Prefeitura.

Está abençoada, portanto, a criação do Sonegador Cívico.

Durante o dia, nosso amado sonegador articula o calote que, como se sabe, faz falta a quem mais precisa dos serviços públicos (leia-se: os mais pobres). No fim da tarde, esse mesmo ente, trêmulo e com lágrimas de emoção por praticar o Bem, entrega alguma bugiganga ao Prefeito e, abraçado a ele, recebe o título de cidadão amigo do povo.

Especulo se, no seu íntimo, o Sonegador Cívico não pensa algo como: “Sonegador, sim. Mas com muito civismo, em nome do Brasil!!!”.

É o que está faltando dizer quando declaram voto de amor ao Presidente Michel e à estabilidade econômica do País.

 

 

 

1 – http://www.valor.com.br/brasil/5025348/rj-corta-servicos-essenciais-para-conter-deficit

2 – http://piaui.folha.uol.com.br/lupa/2017/08/02/denuncia-temer/

3 – http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,governo-cria-programa-para-renegociar-dividas-de-produtores-rurais,70001918489

4 – http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,nao-existe-espaco-para-absorver-perda-de-r-12-bi-com-refis-diz-mansueto,70001893569

5 – http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,relator-do-refis-e-socio-de-empresas-que-devem-r-51-milhoes,70001895471

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