Os claros sinais de um pequeno ditador

1/agosto/2017 - 5:06 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

A imagem como maior capital: Doria prefere o mundo na palma da mão

De tempos em tempos, qualquer nação ignorante impõe à sua História nocautes humilhantes. É da natureza da ignorância, os extremos. O desconhecido tanto pode gerar a sensação do temor absoluto, um pânico generalizado capaz de paralisar, quanto o fascínio cego, o amor incondicional capaz de construir porções de concreta fantasia. Porque o ignorante não consegue racionalizar, analisar e chegar a uma conclusão. Não lhe deram instrumentos para isso. É da mistura ignorância e oportunismo que nascem monstrengos de bela aparência e entranhas putrefeitas. Em outras épocas: lobos em pele de cordeiro.

Esses salvadores da pátria têm sua trajetória – muitas vezes meteórica – calcada na propaganda massiva, no marketing, geralmente cultivado no medo, por sua vez nascido na ignorância, secularmente nutrida pelos candidatos a salvadores da pátria, numa corrente contínua e perversa, que faz do atraso seu mais potente combustível. Terreno mágico onde prolifera o populismo aberto e pragmático.

Foi assim em 1964, quando o fantasma bem produzido do Comunismo assombrou as “famílias de bem” e jogou o país em mais de vinte anos de ditadura militar.

Fernando Collor chegou à presidência, com anuência e apoio da maior rede de TV do país, montado no medo de que um operário levasse o Brasil a uma guinada à esquerda, arruinando a economia. A História mostrou que estavam todos errados.

Vivemos, hoje, mais um daqueles momentos de suspensão, semelhantes aos que antecederam os militares e Collor. O que virá daí é muito difícil de apostar. A certeza é que será emocionante. As peças já estão no tabuleiro.

Lula, se não for preso, é nome forte. Seu eleitorado é parte massa ignorante, parte cegos fascinados.

Marina parece que saiu da toca e começa a agir como candidata. Não se pode esquecer que ela teve 20 milhões de votos em 2014.

Ciro Gomes é o monstrengo azarão. Difícil avaliar o que seria o Brasil em suas mãos.

Bolsonaro tem seus eleitores, por vezes apaixonados, vibrantes. Ele é um dos monstrengos a se temer. Suas ideias repressoras em um país onde a violência criou morada é capaz de encantar a massa ignorante. Representa um retorno a uma fase antiga, que seria honroso esquecer.

Aécio está morto. Alckmin e Doria devem disputar a vaga do PSDB. Doria tem o favoritismo: diz-se não político, gestor, empresário, milionário, é cara conhecida e é a novidade da vez no campo da política. É o outro monstrengo que devemos respeitar.

Em pouco mais de seis meses à frente da prefeitura de São Paulo, João Doria já demonstrou por onde será seu caminho. Deixou um rastro de provas e indícios em atitudes muito questionáveis, especialmente quando o assunto é a população carente ou conquistas democráticas da sociedade. Por outro lado, acarinhou com delicadeza o ego do empresariado.

Seu primeiro ato na prefeitura, depois de se fantasiar de gari, numa demonstração de manual do que é o marketing populista, foi apagar grafites considerados arte e que quebravam a palidez citadina da 23 de Maio e do Minhocão. A reação foi rápida. O Elo entrou com ação contra o prefeito e conseguiu segurar na justiça o spray cinza cobrindo os muros coloridos da cidade.

Depois propagandeou doações de seus parceiros empresários para a prefeitura. Mais uma vez o Elo se interpôs e conseguiu a justa transparência para tais operações tão delicadas no campo da política.

Em maio invadiu a Cracolândia, tratando a dependência química como um simples caso de polícia. Se até aquele momento havia a complacência da sociedade educada, dali em diante o prefeito passou a ser observado com mais cuidado e suas atitudes passaram a receber questionamentos mais enfáticos e duros.

Algumas semanas depois, acordou cidadãos em situação de rua com jatos d’água na madrugada mais fria do ano. E no último fim de semana desalojou moradores de um viaduto no Bixiga no meio da noite – dizem – com fogo. Aos poucos, o prefeito vai se queimando.

Mas há outro lado: sua extrema permissividade à intromissão da classe empresarial nos assuntos da prefeitura. Nomeou uma penca de empresários a cargos importantes da administração municipal e, em outra jogada populista inflada pelo marketing, resolveu o imbróglio do Parque Augusta com um projeto claramente favorável à gigante Cyrela, uma das maiores incorporadoras imobiliárias do país.

Doria se aproveita da base governista na Câmara Municipal para aprovar suas decisões a toque de caixa, sem a devida discussão dos problemas envolvidos na administração da cidade. Está de namoro firme com o presidente da Câmara, Milton Leite (DEM), que abre todas as portas para o prefeito, para surpresa e reclamação dos próprios vereadores do PSDB. São sinais claros de um pequeno ditador, afeito a atitudes unilaterais, arbitrárias, onde a voz do povo não tem vez.

Se você ainda não está convencido, preste atenção no decreto 57.792. O prefeito tirou da população o voto direto para representantes da sociedade civil no Plano Municipal do Livro. Um direito conquistado pela população educada e organizada foi sumariamente transferido para a secretaria de cultura, assim, numa assinatura.

Não foi suficiente? Já está nas mãos de Milton Leite o PL 367, que tem como objetivo privatizar o autódromo de Interlagos, o Pacaembu, Anhembi, Ibirapuera e mais um monte de aparelhos urbanos. A questão é que isso não foi discutido com a sociedade. O presidente da Câmara já tentou levar na conversa a aprovação do projeto, mas vereadores da base governista conseguiram barrar o prosseguimento da votação.

Doria talvez seja o monstrengo mais assustador. Enquanto Ciro é uma incógnita e Bolsonaro é a personificação da obviedade, Doria é a fantasia, capaz de seduzir e encantar, mas que não consegue olhar para o Brasil com o devido rigor conciliador, democrático e humano.

Doria já demonstrou que governa para os seus, e que não tem o mínimo constrangimento em atuar assim. Em poucos meses de governo, deixou claros seus cacoetes arbitrários, amparados basicamente em sua imagem amplificada e trabalhada em molduras ególatras. Aliás, ego inflado, o amor à própria imagem e o discurso forjado naquilo que o ouvinte quer ouvir são características comuns a todo ditador. Basta consultar a História.

 

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