Outubro amarelo: o suicídio de uma nação

12/outubro/2017 - 7:56 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Sim, setembro cairia perfeitamente, mas não deixa de ser sintomático que justamente após o mês de prevenção ao suicídio nossa nação tenha atirado contra a própria testa. É a piada pronta, o mote perfeito. A cada dia nos tornamos mais nós mesmos. Uma nação de aparvalhados engolindo um sapo atrás do outro, como se fosse o alimento mais saudável.

Vivemos em um país entregue à própria sorte. A maldita esperança açoitada sempre que ousa sair de sua caixinha. Os caminhos tortuosos dos desrrumos escancarados à nossa frente. Mas nós capitulamos, nos rendemos, desistimos. Esta submissão matou mais uma vez o país que poderíamos ser. Graças a ela, deixamos os facínoras vencer. Matamos a instituição República.

Nossa república democrática é baseada no equilíbrio entre três poderes: Executivo, Legislativo e Judiciário. Não entrarei no âmbito de estados e municípios, mas apenas ao macro: o plano federal. Mas, evidentemente, todos têm traços, muitos, em comum.

No plano executivo, colecionamos ao longo do tempo vários nomes despreparados para o cargo mais alto da nação. Outros usaram a função para estabelecer planos de poder ou enriquecimento ilícito. Atualmente, temos no cargo o presidente mais impopular da História, levado ao posto por um golpe constitucional (perdoem-me, não acho nome melhor para a coisa) e envolvido nas mais escabrosas e abjetas tratativas dos submundos do poder.

 

Difícil dizer quando o executivo se matou, mas é correto dizer que foi uma morte lenta e lucrativa. Em algum momento, alguém aceitou o envelope pardo sobre a mesa. Talvez tenha sido o primeiro golpe. Hoje, o executivo está morto. O cargo de presidente é meramente figurativo, e um entreposto para a circulação de caixas, malas e mochilas de propina. Os atos mais corriqueiros de Temer são comprar o apoio de parlamentares, seja com cargos ou dinheiro, para não ser afastado da cadeira.

No Legislativo, a morte caminhou mais célere. Apesar dos escândalos que nos assombravam de tempos em tempos, seguíamos na crença (a tal da esperança) de que os corruptos e bandidos eram a minoria, e que, de uma hora para a outra, a maioria honesta e preocupada com a sociedade se ergueria e colocaria o país nos trilhos. Com a divulgação das planilhas da Odebrecht, OAS, J&F e outras, descobrimos que estávamos errados. A relação é inversa. Há mais malfeitores encastelados nas casas legislativas do que probos parlamentares. Uma diferença que tende a aumentar, caso permaneçamos em investigação constante. Nada como uma planilha atrás da outra.

 

Ali, o Legislativo morreu. É verdade que todos os mecanismos e aparelhos estão funcionando para mantê-lo vivo, mas é só o corpo. Esse esforço de autopreservação não salva almas. E as almas do Legislativo já estão perdidas.

O voto a favor de Aécio deixou claro que alguns podem mais do que os outros

Nosso Judiciário em termos de fiscalizar e julgar foi, quase sempre, uma mosca morta. Há alguns anos vinha deixando a esperança colocar a cabeça para fora da caixa. Com a deflagração de grandes operações pela Polícia Federal envolvendo políticos graúdos, o Judiciário conheceu o poder midiático, ganhou reconhecimento, likes, e alguns de seus ministros viram a fama de perto a beijar-lhes a face. Nossos heróis e heroínas de togas pretas eram os últimos botes salva-vidas. Só eles poderiam nos salvar do naufrágio iminente.

Mas, de uns tempos para cá, quando os nomes graúdos foram chegando ao funil, mais uma vez nos deparamos com o óbvio: as decisões do STF iam ficando mais frouxas, dependendo do cacife do outro lado do processo.

Quando Cármem Lúcia proferiu seu voto de desempate na questão que envolve diretamente o senador Aécio Neves, sobre as medidas cautelares e o afastamento do cargo, entregando a decisão aos seus pares do Legislativo, a ministra apertou o gatilho contra a própria cabeça, produzindo um mal-estar geral, como se o sapo dessa vez estivesse assaz apimentado.

A decisão da mais alta corte do país que, na prática, significa um lavar as mãos, foi o golpe de misericórdia naquilo que chamamos de República. No Brasil, o Executivo não executa, o Legislativo só pensa na própria pele, e o Judiciário se exime. O país está morto. Matou-se na voz de Cármem Lúcia e deixou a certeza de que alguns dos ministros do STF também têm algo a temer.

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