Pesquisas e gelo

28/novembro/2017 - 6:21 pm

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

Pesquisas, muitas vezes, não gozam de boa reputação – e não são poucos os que duvidam de sua técnica ou, até mesmo, sinceridade.

Com a trágica situação da Cracolândia, não parece ser diferente.

Pesquisa divulgada no fim de outubro pelo Governo do Estado de São Paulo comemorou o fato de que a Cracolândia teve uma redução de 77% no número de dependentes químicos que ali se encontram. Antes da “ação” (leia-se: colocar a polícia para descer a paulada em cima de pessoas doentes) de 21 de maio, estimava-se a população em 1.861 pessoas. Agora, seriam 414.

Detalhe: por Cracolândia, segundo a pesquisa, entende-se as Ruas Helvetia, Dino Bueno e Alameda Cleveland.

Como é que é???

Esta é exatamente a região que, em 21 de maio, teria sido, digamos, “conquistada” pela polícia, na triste operação que até prédio derrubado com gente dentro teve. Quando Sua Excelência, o caridoso Prefeito Doria, proclamou o fim da Cracolândia, não era exatamente àquela região que ele se referia? Como é que, agora, no mesmo local, o Governo do Estado comemora a permanência de “apenas” 414 pessoas?

Vale repetir: a pesquisa não diz respeito às aglomerações que se formaram, por exemplo, na Praça Princesa Isabel ou na Avenida Duque de Caxias – para onde a Cracolândia se espraiou, formando a Nova Cracolândia. Ela diz respeito à Velha Cracolândia.

Outra pesquisa interessante: dados da própria Prefeitura (v. O Estado de S. Paulo, edição de 07.08.17) apontavam que, entre julho e agosto deste ano, a população de doentes da região havia passado de 300 para 600 (isso, já na região das “Cracolândias Espraiadas” – expressão que não é de minha invenção, mas da excelente repórter do Valor Econômico, Maria Cristina Fernandes).

Não dá pra entender mais nada: primeiro, a Velha Cracolândia havia acabado, conforme o decreto marcial do Prefeito Doria; depois, com a Nova Cracolândia, o número de dependentes químicos dobrou (de 300 para 600); e, por fim, mesmo na Velha Cracolândia, ainda há mais de 400 doentes (sem contar o elevado número de pessoas que se espalharam pela região).

É muita inconsistência – o que me faz acreditar que, para propagandear que Governo e Prefeitura estão dando um show de bola no trato com o problema, tá valendo qualquer coisa.

Não estou surpreso. Do grupo que governa o Estado desde os tempos de Tibiraçá (ao qual pertence o Governador Alckmin), não dá para esperar nada de novo – é sempre mais do (insuficiente) mesmo. E com quem, dizendo-se o suprassumo da modernidade (caso do amoroso Prefeito Doria), coloca para conduzir um programa de dependência química alguém historicamente ligado à indústria do álcool (nossa maior fabricante de dependentes químicos), o que dá para fazer é rezar muito para que o homem se candidate logo a qualquer coisa.

Ainda vamos enxugar muito gelo.

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