Progressista e de Centro: pode isso?

19/julho/2017 - 1:00 pm

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Allen Ferraudo tem 34 anos, é mestre em Economia & Direito, com foco em inovação, pela Universidade de Bolonha na Itália onde obteve, também, a graduação em Relações Internacionais. Desde 2015 vem se inserindo na política com o intuito de repensar as instituições públicas sob a ótica dos ativos intangíveis e do patrimônio imaterial. É também empreendedor e possui gosto pela música, artes cênicas, cinema e fotografia.

Perguntam-me frequentemente se sou de direita ou de esquerda, se já votei no PSDB ou no PT, se sou marxista ou liberal e, infelizmente, a resposta é sempre a mesma: depende. A resposta não é uma forma de “escapar” da pergunta, provavelmente me escondendo numa outra que vem sempre na sequência: depende do quê? Minha resposta é dada por um fator cultural, que define de verdade o que é ter posicionamento político numa realidade fatídica e não num cenário hipotético. Para muitos a seguinte afirmação pode ser um choque: todo posicionamento ideológico está vinculado a questões culturais e regionais e não a uma relação linear e universalista das ideias. Não existe esquerda ou direita universal, as fraturas sociais de cada povo produzem suas próprias relações de força. Relações estas que não são replicáveis, vistas ou conhecidas em todos os lugares. Basta olhar com carinho e vemos que o Brasil tem uma causa indígena que inexiste no mundo todo.Incluir essa causa numa relação capital-trabalho e dizer que se trata de uma causa de esquerda é reduzir a causa a uma fatia do problema.

No Brasil vivemos uma fase de polarização política que dissolve o tecido social e as nossas relações de confiança. Muitas pessoas que conhecemos desfizeram amizades, ou mesmo deixaram de frequentar ambientes comuns por não suportar opiniões diferentes, e é exatamente isso que corrói a democracia e as instituições. A construção da agenda política, seja da esquerda ou da direita, nada mais faz do que modificar privilégios e inverter tendências, sob a justificativa de um reequilíbrio das forças sociais.Por isso a polarização está em alta. Um bom exemplo dessa inversão de agenda encontramos na nossa municipalidade, o PSDB de Dória Jr. inverteu muitas das políticas aplicadas pelo PT na figura do Haddad, e o inverso provavelmente teria acontecido também. O problema dessa inversão de lados ideológicos opostos é o aumento de traumas e rupturas no tecido social deixando-se de dar continuidade em projetos importantes na periferia para se priorizar o centro, que, de certa forma, sempre teve políticas contínuas com intensidades diferentes. Em outras palavras, gestão com viés ideológico desvirtua o papel do Estado e compromete a funcionalidade das instituições públicas.

Como afirmado no meu primeiro artigo, as instituições dependem de pessoas e são, na verdade, o espelho histórico do desenvolvimento de uma sociedade. Quem são essas pessoas que poderiam repensar as instituições que reforçam a nossa democracia? Pois bem, precisamos repensar a polarização que vivemos, e em primeiro lugar temos que dissociar os progressistas dos militantes da esquerda tradicional, o que nos faz pensar na possibilidade de uma direita progressista e na existência de uma esquerda conservadora. Em segundo lugar, temos a necessidade de supor um viés ideológico aos atores do centro, isto é, o PMDB se comporta como um partido conservador de centro, assim podemos pensar na possibilidade de forças de centro com espectro progressista capaz de formar uma polarização a este centro conservador.

Dito isto é fácil apontar quem são os atores que podem fazer a diferença no Brasil de hoje. Somos eu, você e aqueles que veem que PT, PSDB e PMDB e outros tradicionais partidões são os propulsores da crise, que agem e agiram conservadoramente na manutenção de seus privilégios políticos e do próprio poder. O PMDB deve ser confrontado pelos centro-progressistas, que são pessoas que buscam uma responsabilidade maior nos resultados da gestão política do país. A polarização entre direita e esquerda – uma polarização “siri” – distorce as funções institucionais da política e dos partidos, pois não direciona a sociedade para frente, diferentemente da polarização entre progressistas e conservadores – polarização “coruja” – que é seguramente mais propositiva, objetiva e direcional. A necessidade de formatar um projeto político com foco na coesão social deve ser o centro de tudo, algo que produz resultados que possam se consolidar de verdade na sociedade brasileira, independentemente de estarmos à direita ou à esquerda. A falta de um centro progressista organizado produz os resultados que vemos: um país sem projeto, alto índice de corrupção e políticos que procuram a sobrevivência na base dos acordos escusos firmados em encontros informais, um claro exemplo do enfraquecimento democrático e institucional do sistema político nacional.

As instituições públicas e privadas, a sociedade civil e a política devem caminhar para frente, seguindo um projeto coerente, racional, que seja executável e posto acima das personalidades que as executam. Só teremos uma nova política se a olharmos em nossa sociedade! As forças conservadoras devem ser confrontadas em todas as suas linhas ideológicas, principalmente no centro do poder que sempre esteve na mão do PMDB. Hoje, se me interpelassem sobre qual o meu posicionamento político, diria, com orgulho, centro-progressista. A polarização não pode ser negada, ela existe, mas somente uma desenvolve um país ao longo do tempo, aquela que propõe alternativas e que se adapta às mudanças. A construção de uma agenda responsável começa com a união dessas pessoas e com a priorização de temas que custam caro à sociedade, como a corrupção, a ética e o desenvolvimento sustentável. Pensar uma reforma política começa por identificar os agentes capazes de melhorar as instituições públicas, isto é, precisamos identificar a parcela da sociedade que pensa e faz a coisa acontecer de forma progressista.

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