Propostas para lidar com a dependência química

20/setembro/2017 - 5:06 pm

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

Quando de minha campanha para vereador, em 2016, apresentei um programa sobre o que considerava ser necessário para lidar com o triste quadro da dependência química.

Fiz, na ocasião, críticas severas ao modelo adotado pela gestão Haddad, em especial no que diz respeito aos custos do seu principal programa (o “De Braços Abertos”), bem como no que concerne ao, a meu ver, modo equivocado de conceber o que deveria ser a chamada “redução de danos”.

Mantenho as críticas, mas faço uma ressalva: mesmo com erros, a experiência não pode ser menosprezada – e, sim, aperfeiçoada. Além disso, conheci profissionais de altíssimo gabarito e inabalável compromisso para com a população dos doentes. São pessoas cuja ajuda será necessária em qualquer programa que minimamente se leve a sério.

O que eu jamais poderia imaginar era que a gestão seguinte conseguisse a proeza de ser muito (repito: muito) pior.

E, para tal, bastaria uma razão: quem nomeia, como líder do maior programa de tratamento de dependência química do município, alguém que, há muitos anos, trabalha para a Ambev (a maior – e mais lucrativa – fabricante de dependentes químicos do Brasil), ou não quer ser levado a sério, ou não leva a sério quem sofre com essa tragédia.

Doria deu um forte tapa na cara dos dependentes químicos e seus familiares. E isso não é um erro; é a deliberada insensibilidade social.

É pena que a dependência química, no Brasil, ainda seja vista como uma questão de vagabundagem e mau-caratismo – algo que nem mereceria a atenção da política, mas apenas a da polícia e, se tanto, a da limpeza pública.

Fosse diferente e Doria estaria, com justiça, respondendo a um processo de impeachment.

***

Dependência química e políticas públicas

 

 

i – Um problema de saúde pública

 

Não há dúvida de que a dependência química é problema capital em nossa sociedade, qualquer que seja o ângulo pelo qual se aborde a questão.

Sabe-se, por exemplo, que aproximadamente 10% da população brasileira é dependente de álcool (a droga mais consumida entre nós, até porque, além de ser a mais antiga de que se tem notícia, possui consumo, comercialização e produção legalizados).

Estudo publicado em 2006 pelo CEBRID – Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas, instituição ligada à Universidade Federal de São Paulo (1), apontou a existência de 12,3% de dependentes de álcool entre a população das 108 maiores cidades brasileiras (ao passo que, para dependentes de cocaína e derivados, foi encontrado o percentual de 0,2% de dependentes entre toda a população).

Trabalho posterior, de metodologia distinta, levado a cabo em 2012 pela UNIAD – Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas da UNIFESP (2), encontrou percentual um pouco distinto com relação ao álcool: 17,2% da parcela da população que não é abstêmia (mais de 50%). Embora o estudo não se refira, com relação à cocaína, especificamente a respeito de dependência, apurou-se que 1,7% da população adulta e 1,6% da população adolescente havia feito uso de cocaína aspirada ao menos 1 (uma) vez nos últimos 12 meses anteriores à pesquisa, sendo esse percentual de 0,7% e 0,1%, respectivamente, com relação ao crack.

O psicanalista Eduardo Mascarenhas, já no distante ano de 1990, apontava que, à época, o percentual de dependentes de álcool no Brasil era de 10% a 13% (3).

Pelo que se vê, portanto, não é possível deixar de considerar o alcoolismo como principal ator no triste palco da dependência química.

Detalhe importante: não existe qualquer demonstração de que o alcoolismo acometa a essa ou àquela classe social, econômica ou cultural. A doença é democrática por definição.

Uma das principais razões para o acometimento do alcoolismo, portanto, passa principalmente pelo fator genético, ou, em outras palavras, pela predisposição biológica (sem desconsiderar fatores sociais e comportamentais), como, em 2014, anotava o médico Dráuzio Varella (4). Nada leva a crer, ademais, que o alcoolismo, em particular, seja privilégio de, por assim dizer, castas moralmente inferiores ou de pessoas de menor caráter e responsabilidade.

Seja como for, o fato é que aproximadamente 10% da população é composta por dependentes de álcool. São pessoas que inevitavelmente desenvolverão a doença a partir do momento que entrarem em contato com álcool – o que, cedo ou tarde, muito provavelmente farão, dada a aceitação social da bebida em inúmeras situações.

Se 10% da população é de dependentes de álcool, é incontestável a altíssima incidência da dependência química entre nós, com todos os seus nefastos consectários.

Não surpreende saber, por exemplo, que o alcoolismo está envolvido em 50% dos casos de violência doméstica, conforme relatado pelo mesmo estudo da UNIAD, acima citado.

Tampouco surpreende constatar que aproximadamente 40% das vítimas de homicídio encontravam-se alcoolizadas (Andreuccetti apud Souza – 5), como revela pesquisa efetuada no âmbito da cidade de São Paulo, premiada, em 2007, pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas – SENAD.

Mais: 50% dos acidentes automobilísticos com vítimas fatais tiveram por causa a embriaguez, como atesta a Associação Brasileira de Medicina de Tráfego (6) – cumprindo observar que, no Brasil, o prejuízo com acidentes automobilísticos é de R$ 28 bilhões (entre custos hospitalares, absenteísmo e gastos previdenciários), bem como que 25% das pessoas admitem que dirigem seus veículos mesmo quando embriagadas (7).

Sob o prisma da saúde, tem-se que, conforme apuração do Ministério da Saúde no ano de 2007, em torno de 35% das pessoas que ingressaram em hospitais de emergência encontravam-se alcoolizadas (8).

Por outro lado, pesquisas feitas na seara universitária apontam que de 35% (Bacelar, 2010 – 9) a 50% (Oliveira e Oliveira, 2010 – 10) de pacientes internados em hospitais assim se encontravam em função de doenças secundárias ao uso abusivo do álcool.

O alcoolismo, aliás, de acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), é a terceira maior causa de mortes no mundo, atingindo 6% da população (11) – atrás apenas de doenças cardíacas e dos acidentes vasculares cerebrais – AVC (12).

 

A Organização Internacional do Trabalho – OIT assevera que de 20% a 25% dos acidentes de trabalho observados no mundo têm por causa a intoxicação decorrente da dependência química (13). Vale destacar que a pesquisa apontada versa apenas sobre acidentes e não se reporta a queda de produtividade, dificuldades no relacionamento entre colaboradores e faltas frequentes, características típicas dos dependentes químicos (Pisaneschi – 14).

Aliás, e lembrando que o alcoolismo é a origem de mais de duzentas doenças que lhe são consequentes (15), no que tange ao absenteísmo, a mesma OIT (Organização Internacional do Trabalho) aponta que 50% das ausências no trabalho, no mundo, decorrem do alcoolismo (16).

Absenteísmo, acidentes, doenças e queda produtividade causados por uso de álcool e outras drogas custam ao Brasil US$ 19 bilhões ao ano, conforme cálculos do Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID (13).

Não é sem razão, assim, a estimativa de que apenas os prejuízos decorrentes do alcoolismo sejam, no País, da ordem 7,3% do PIB (Moraes e colaboradores, 2006 – 17), como antes mencionado – o que é próximo aos gastos totais do Brasil em saúde em 2013 (9,7% do PIB, sendo que, desse montante, 52% são despendidos pelo setor privado e 48%, pelo setor público – 18).

Por fim, cabe fazer a seguinte ponderação: se é verdade que, em especial entre os mais jovens, o uso excessivo do álcool é fator de altíssimo risco a “apagões, violência, acidentes e sexo sem proteção”, como relata o psiquiatra Jairo Bouer ao citar pesquisa da UNIFESP (19), o que poderia se supor acerca da experimentação de outras drogas no estado intoxicação alcoólica, em que a autocrítica foi adormecida?

Assim, a dependência química se consubstancia numa pesada conta que toda a sociedade paga, a juros pesadíssimos – e que não debitada apenas junto a alguns desafortunados.

Em síntese, tem-se que:

– 3ª maior causa de mortes no mundo;

– dependência química (apenas o alcoolismo): 10% da população;

– 50% dos casos de violência doméstica;

– 40% das vítimas de homicídio;

– 50% dos acidentes de trânsito com vítimas fatais;

– 35% dos atendimentos em prontos-socorros;

– 35% a 50% das internações;

– 20% a 25% dos acidentes de trabalho;

– 50% das faltas ao trabalho;

– custo para o Brasil: 7,3% do PIB.

 

 

ii – O que fazer

Para qualquer tipo de recuperação, é preciso, acima de tudo, que o próprio dependente almeje essa condição. Infelizmente, não é possível querer ou decidir por ele ou por ela.

Em geral, uma abordagem eficaz acerca da necessidade da aceitação de qualquer tipo de tratamento se dá não num momento de entorpecimento (ou numa situação de conforto, ainda que artificial), mas no advento de situação de séria gravidade, pois são os problemas que sensibilizam o dependente a aceitar algum tipo de ajuda.

Mais: ainda que, por hipótese, seja necessária uma internação contrária à vontade do paciente para fins, ao menos, de desintoxicação (20), isso terá pouca utilidade se, tão logo receba alta, essa pessoa volte a fazer da droga (lícita ou não) que a levou àquela situação.

Em situações extremas (e ser dependente, convenha-se, é uma situação extrema), a recuperação é para toda a vida (e esse é o verdadeiro ativo a ser alcançado). Nessa seara, não há ilusões: quem foi à lona pela dependência de álcool, não poderá tomar a famosa “cervejinha de final de tarde”; assim como quem perdeu tudo devido ao uso do crack não poderá fumar uma pedra ou duas dessa substância apenas nos finais de semana – sob pena de, tanto num quanto noutro caso, retomar-se o exato ponto vislumbrado antes da internação (e dali em diante apenas piorar o que já era muito ruim).

Grupos de autoajuda, como Alcóolicos Anônimos ou Narcóticos Anônimos, são pródigos, infelizmente, em demonstrar, na prática, a necessidade dessa abstinência total: não raro, dependentes por anos em abstinência, ao tentarem fazer uso dito moderado de álcool ou outras drogas, retornaram à mesma condição em que se encontravam. Não se trata, registre-se, de um dogma, mas de uma constatação prática.

Portanto, para que o dependente queira se recuperar, ele precisa:

  • primeiro, ter o máximo de informações a respeito da dependência química;
  • segundo, quando num estágio já adiantado de sua dependência, ser abordado em momento oportuno;
  • terceiro, quando desintoxicado e razoavelmente ciente de sua condição, ser, quando o caso, assistido socialmente para que, ao menos, lhe sejam viabilizados recursos para o sustento material.
  • Informação, abordagem e acompanhamento – eis os pilares sob os quais, a nosso ver, deve se sustentar uma política pública séria a respeito da dependência química.

iii – Informação

É preciso difundir as informações relacionadas à dependência química – e, aqui, não há espaço para medos ou preconceitos.

Se o alcoolismo é uma questão tão séria de saúde pública, é de se indagar acerca do porquê da hesitação em se tratar do tema.

Sebatian Reiche, professor de gestão de pessoas em organizações na Iese Business School, ao relatar os males causados junto a executivos que, pelo alucinante ritmo de trabalho e viagens comerciais, apresentam sérios problemas de saúde devido às poucas horas de sono, diz que o assunto, a despeito da gravidade, é visto como “tabu, talvez porque estejamos acostumados a relacionar o sono à preguiça” (21). Talvez se possa dizer o mesmo sobre o alcoolismo, em que se relaciona o problema a uma deficiência moral ou mesmo à pura e simples vagabundagem insensível. Isso, porém, não pode mais justificar o silêncio – e a gravidade da dependência química recomenda não descartar as melhores formas de transmissão de conhecimento.

Como se sabe, é na escola que se adquirem as ferramentas que darão as condições de mais adequadamente nos prepararmos para os desafios da vida. A educação é, por isso, o bem maior de uma sociedade – e não há quem disso possa discordar.

Se assim é, torna-se inexplicável não se ensinar dependência química a quem mais necessita saber, com precisão e sem preconceitos morais, sobre o problema: crianças e adolescentes.

Não se deve, por óbvio, ser desconsiderada a importância de tratar do assunto no âmbito familiar, mas deixar essa tarefa exclusivamente sobre os ombros de pais e avós não é suficiente nem justo – assim como não seria justo exigir que a família se responsabilizasse integralmente por ensinar português, matemática, história e geografia.

Mais dia, menos dia, o estudante (ou, pelo menos, sua esmagadora maioria) entrará em contato com as drogas. O uso do álcool, aliás, jamais foi proibido no Brasil – há séculos ele está disponível a qualquer um. Não existe razão, portanto, para que se procrastine a implantação de uma política de educação escolar sobre drogas, lícitas e ilícitas.

E quando se diz que é preciso abordar o tema nas escolas, não caberia fazê-lo vez ou outra, uma ou duas vezes ao ano, quando algum voluntário abnegado se dispõe a ajudar na solução de um problema que não é só dele – e sim de toda a sociedade. Refere-se, isto sim, a abordar o assunto como uma matéria específica, ministrada de maneira constante e cuja absorção, pelos alunos, seria cobrada exatamente igual ao que se faz com as demais disciplinas – até porque pesquisas relacionadas, por exemplo, à educação financeira demonstram ser desprezível a absorção, pelos alunos, de palestras ministradas com periodicidade bissexta, ao passo de que, se ministrados os mesmos conceitos ao longo do curso escolar, o aprendizado será melhor (22).

Ou seja: o que se propõe é uma modificação na grade curricular da rede pública municipal, a fim de que a dependência química seja matéria específica e obrigatória, a exemplo das matérias básicas.

Naturalmente, os professores precisarão ser capacitados para tal – e, certamente, não faltarão profissionais da área da saúde pública e da pedagogia, inclusive pertencentes a entidades do terceiro setor ou universidades, aptos a prestar essa capacitação mediante a celebração de convênios com o Município.

 

 

iv – Abordagem

Como visto, o dependente químico é usuário contumaz dos serviços de saúde – ainda que por razões secundárias à própria dependência, como é o caso de acidentes de trânsito, agressões ou outros males decorrentes da alta intoxicação.

Nesse passo, é importante que cada aparelho público municipal de saúde passe a contemplar uma equipe responsável para, em conjunto com os profissionais de assistência médica, identificar esses casos, abordar pacientes e familiares presentes, orientá-los acerca da dependência química (em especial, do alcoolismo) e encaminhá-los tanto a unidades já existentes dos CAPS AD (Centro de Atenção Psicossocial para Álcool e outras Drogas) quanto para entidades não governamentais que prestam apoio a doentes e familiares. Cabe aqui uma ressalva: não se pode subestimar nem o sofrimento de cada familiar (que, também por viver uma tragédia, precisa ser ajudado e orientado) nem a importância de seu papel na recuperação (pois, não raro, é o familiar que sensibilizará o dependente para a busca da ajuda adequada).

Fazendo-se assim, o Poder Público: (1) torna-se proativo na abordagem do assunto, em especial na orientação à família; (2) age de forma capilarizada, sem remeter à iniciativa do paciente (ou de se familiar) o ato de ir à busca de um CAPS AD; (3) incentiva a cultura de conscientização, abordando, franca e abertamente, o assunto num momento em que as pessoas, dada a delicada situação por que passam no momento, estão, em princípio, propensas a receber informações; e (4) trata o tema no campo que lhe é próprio: na saúde pública.

Isso não é tudo. A partir da referência dos centros de orientação existentes nos hospitais municipais, as equipes de saúde da família sejam capacitadas para, no âmbito de suas visitas, orientar dependentes e, principalmente, familiares.

É preciso que os profissionais responsáveis por esses serviços atuem conectados em rede, tanto para registro e eventual acompanhamento posterior das pessoas abordadas (cuja finalidade é exclusivamente de caráter informativo médico e social; jamais policial) quanto para comunicação entre esses próprios profissionais.

Detalhe: é de facílima implantação, no ambiente virtual, ferramenta que identifica pontos de ajuda gratuitos (públicos ou não governamentais), tanto a familiares quanto a dependentes, próximos a determinada região (que pode ser, por exemplo, a da residência daqueles). Essa ferramenta, além de ser utilizada pela equipe de abordagem, deveria, também, ocupar local de fácil visualização no próprio site oficial da Municipalidade.

Com relação às entidades de mútua ajuda (como, dentre outros, Alcoólicos Anônimos, Al-Anon (destinado a familiares), Narcóticos Anônimos, Nar-Anon (destinado a familiares), Associação Antialcoólica do Estado de São Paulo e Amor-Exigente), cabe asseverar que, via de regra, esses grupos funcionam em espaços cedidos por entidades religiosas.

Assim – e, sobretudo, tendo em vista a proeminência da cultura da conscientização e da difusão de informação –, seria recomendável que, através do diálogo junto a esses grupos e junto à comunidade escolar, se averiguasse a possibilidade (e eventual interesse) da cessão de espaço público a tais entidades (ainda que, por exemplo, apenas às que prestam apoio e orientação a familiares), em especial pelo período em que as escolas se encontrassem fora de horário de aula.

A exemplo do que ocorreria com os próprios aparelhos de saúde pública, este poderia ser mais um passo rumo à cultura da conscientização – no mínimo, como apontado, junto aos familiares.

Vale dizer que a abordagem descrita nesse tópico, além de orientar os interessados, não é ato que se se esgota em si mesmo: através dele, encaminha-se o paciente para a fase seguinte, a de encaminhamento ao profissional habilitado ao diagnóstico e tratamento – sem prejuízo, é claro, de se orientar o familiar e o dependente a, pelo menos, procurarem grupos de autoajuda, dando-se o primeiro passo para a solução do problema.

v – Tratamento

O tratamento da dependência química não pode ser ideologizado.

Se, por um lado, nem todo paciente precisa de internação, é igualmente verdadeiro que nem todos podem dispensá-la.

Infelizmente, o principal programa municipal de tratamento da dependência química do município de São Paulo, intitulado “De Braços Abertos”, tem se mostrado caro e pouco eficaz.

O “De Braços Abertos”, decorridos 2 anos de sua implantação, prestou 800 atendimentos, segundo informações da própria gestão municipal atual (23).

Supondo-se, em uma hipótese extremamente otimista, que “atendimentos” signifiquem “atendimentos a pessoas diferentes”, o programa teria atendido 33,3 pessoas por mês, isto é, pouco mais de uma pessoa por dia.

O programa custa aos cofres municipais a quantia R$ 815 mil por mês – ou R$ 9,78 milhões por ano (24). Portanto, para cada “atendimento” prestado, o Município gastou algo próximo a R$ 27.000,00. Há de se concordar que é muito dinheiro para um atendimento.

Uma observação importante: também segundo a própria gestão municipal atual, o custo de um CAPS AD, na “média”, é de R$ 400 mil por mês. Como há, em São Paulo, 26 CAPS AD (de um total de 82) mantidos pela Municipalidade, tem que o custo total desses aparelhos é de R$ 12,24 milhões ao ano (25) – próximos, portanto, dos R$ 9,78 milhões anuais dispendidos pelo “De Braços Abertos”.

Como se sabe, o “De Braços Abertos” baseia-se na política de redução de danos – em que os dependentes, principalmente os que se fixaram na região conhecida por “Cracolândia”, recebem R$ 15 por semana para laborarem em pequenas atividades de limpeza e varrição de ruas, além de lhes serem permitidos residir em hotéis situados na própria Cracolândia.

Com o devido respeito, a situação não é muito diferente de se colocar alguns trocados no bolso de um dependente de álcool no último estágio da doença e oferecer-lhe moradia dentro do próprio bar, na esperança de que, com algum dinheiro em mãos, um milagre aconteça – e ele compre outra coisa ao invés de bebida. Por mais de R$ 800 mil ao mês, seria de esperar algo mais eficaz.

Muito embora, à luz da gravidade do assunto, as despesas municipais com a dependência química estejam gritantemente subdimensionadas – pois, somando-se os custos do “De Braços Abertos” com o dos 26 CAPS AD (9,78 mi + 12,24 mi), os gastos são de R$ 22 milhões ao ano (isto é, 0,25% do orçamento para saúde, que, em 2.015, foi de R$ 9,2 bilhões) –, o fato é que os recursos estão mal posicionados.

Nosso entendimento para melhor aproveitá-los seria:

1 – reavaliar o programa “De Braços Abertos”;

2 – aumentar o número de profissionais responsáveis por identificar e abordar (psiquiatras, assistentes sociais, enfermeiros, técnicos de enfermagem e psicólogos), os quais avaliariam os casos passíveis de internação, sem prejuízo do encaminhamento aos que não necessitarem dessa medida (v. itens 4 e 5 infra);

3 – celebrar convênios com comunidades terapêuticas, pelos valores praticados atualmente pelo Governo do Estado de São Paulo (que paga aproximadamente R$ 1.500 por mês de internação – 26);

4 – os profissionais do Município, no período final de internação, orientariam os dependentes em recuperação a, quando deixarem a internação:

  1. frequentarem grupos de autoajuda;
  2. residirem, por prazo não superior a 6 meses, em moradias alugadas pela própria Prefeitura, na capital, nas quais os dependentes, sob a constante supervisão assistencial, além de receberem alimentação e hospedagem, participariam de cursos técnicos para formação profissional (como, por exemplo, de agentes ambientais).

Muitas vezes, esses dependentes não encontram condições de fixação junto ao mercado de trabalho, donde a importância dessa formação.

5 – acompanhar, através dos CAPS AD, a evolução dos pacientes, após deixarem a sobredita residência, em especial no que tange à frequência de grupos de autoajuda;

6 – celebrar convênios entidades de formação de ensino de caráter paraestatal.

vi – Conclusão.

Em remate, pode-se dizer que a nova política sobre drogas funda-se em:

1 – criar a cultura da conscientização, em especial no ambiente escolar;

2 – agir de forma proativa e capilarizada (isto é, em rede), seja na abordagem, seja na orientação, valendo-se dos aparelhos de saúde públicos existentes (e não apenas de locais específicos, em que é o dependente ou o familiar quem toma a iniciativa de buscar o serviço);

3 – priorizar o atendimento proativo à família do dependente, pois esta também é vítima do problema, mas, não raro, pode ser também parte da solução;

4 – possibilitar a desintoxicação do dependente para, depois, prestar apoio à formação profissional, necessária à readaptação social – sem prejuízo de conscientizá-lo de que a recuperação é para sempre;

Por evidente, esse rearranjo nos serviços públicos demandará uma alta capacidade de conexão entre áreas distintas do Poder Público – como saúde, assistência social, direitos humanos, educação, assuntos jurídicos, trabalho e segurança. A capacidade para conectar serviços que, de alguma forma (ao menos em parte), já são prestados, porém em caráter isolado, é fundamental ao êxito do projeto.

Nesse sentido, propõe-se uma Secretaria Municipal específica que se responsabilizasse pela política sobre drogas do Município, cuja estrutura administrativa adviria a partir de cargos já preenchidos – cumprindo fazer um remanejamento de recursos humanos já em atividade, e não, como se diz, pelo “inchaço” da máquina pública.

Por fim, nunca é demais lembrar que a política pública aqui traçada, à toda evidência, se destina, no campo da saúde, às pessoas que atingiram a dependência de drogas, lícitas ou ilícitas.

E, no âmbito da educação, o que se defende é o direito à ao aprendizado efetivo.

Essa nova política não tem por objetivo nem por função se posicionar contra os indivíduos que podem fazer uso moderado daquelas substâncias, pois esse não é o papel da Secretaria.

A Secretaria, ademais, precisa encontrar-se, sempre, apoiada e formada por indivíduos que se encontrem predispostos a aceitar e entender métodos distintos de tratamento, desde que compatíveis com evidências científicas e os princípios da humanização do paciente. A dependência química é um problema grande demais para perder-se tempo e energia com sectarismos ou apegos a teses.

 

 

 

 

4 – Referências bibliográficas:

1 – CEBRID – Centro Brasileiro de Informação sobre Drogas, instituição ligada à Universidade Federal de São Paulo, “II Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil: Estudo Envolvendo as 108 Maiores Cidades do País”, publicado em 2.006;

 

2 – UNIAD – Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas da UNIFESP, “II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad)”, publicado em 2.012.

 

3 – Mascarenhas, Eduardo – Alcoolismo, Drogas e Grupos Anônimos de Mútua Ajuda, Edições Siciliano, 1.990.

4 – Dráuzio Varella – entrevista concedida ao “Estado de S. Paulo”, edição de 29.06.08, caderno “Aliás”.

 

5 – Souza, Robson Sávio; artigo intitulado “Álcool: a droga da morte”, publicado no jornal Santuário de Aparecida, edição de 19.03.15. Também disponível em <http://www.a12.com/editora-santuario/artigos/detalhes/alcool-a-droga-da-morte>. O artigo cita a pesquisa de Andreuccetti, Gabriel, de 2.007, intitulado “Uso do álcool por vítimas de homicídio no município de São Paulo”.

 

6 – Disponível em <http://jovempan.uol.com.br/noticias/brasil/50-das-mortes-no-transito-sao-causadas-pelo-consumo-de-bebidas-alcoolicas.html>

 

7 – Valor Econômico, edição de 20.05.15, pág. A5. Também disponível em <http://www.valor.com.br/brasil/4057440/mortes-no-transito-custam-r-28-bilhoes-por-ano>

 

8 – Macris, Vanderlei – requerimento de instituição de Comissão Parlamentar de Inquérito no âmbito da Câmara Federal, de 2.011, com o fim de apurar causas e consequências do consumo abusivo de álcool (a qual acabou por dar azo à instalação de comissão especial na Casa no ano de 2.012). Também disponível em <http://www2.camara.gov.br/…/especiais/…/bebidas-alcoolicas/relatorio…/relatorio…>.

 

9 – Bacelar, Juliana Ferreira – “Morbidades e consumo de álcool em pacientes internados na Clínica Médica de um  hospital universitário”, monografia de Conclusão de Curso apresentada ao Curso de Graduação em Enfermagem em 2010 da Faculdade de Medicina de Botucatu – UNESP. Também disponível em <http://repositorio.unesp.br/bitstream/handle/11449/118154/bacelar_jf_tcc_botfm.pdf?sequence=1>.

 

10 – Oliveira, Vanessa Rocha de; e Oliveira, Luiz Carlos Marques de – “Reconhecimento de alcoolismo em um hospital geral universitário” (2006), pesquisa realizada junto ao Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU). Também disponível em <http://rmmg.org/artigo/detalhes/261>.

 

11 – Organização Mundial de Saúde – OMS, “Relatório Global sobre o Álcool e a Saúde 2014”. Disponível em <http://www.ebc.com.br/noticias/internacional/2014/05/mais-de-3-milhoes-morrem-anualmente-devido-ao-consumo-nocivo-do>.

 

12 – Organização Mundial de Saúde – OMS, relatório sobre as principais causas de morte no mundo (2012) – apud Fleury Laboratório e Saúde, em matéria intitulada “As principais causas de mortalidade no mundo, segundo a OMS”, disponível em <http://www.fleury.com.br/medicos/educacao-medica/revista-medica/materias/pages/as-principais-causas-de-mortalidade-no-mundo-segundo-a-oms.aspx>.

 

13 – Organização Internacional do Trabalho – OIT, conforme notícia extraída do site Saúde Web, de 26.02.14, intitulada “Absenteísmo causado por drogas gera prejuízo anual de US$ 19 bi”. Disponível em <http://saudebusiness.com/noticias/absenteismo-causado-por-drogas-gera-prejuizo-anual-de-us-19-bi/>.

 

14 – Pisaneschi, Cristina (especialista em testes toxicológicos) – declaração extraída do site Saúde Web, de 26.02.14, em matéria intitulada “Absenteísmo causado por drogas gera prejuízo anual de US$ 19 bi”. Disponível em <http://saudebusiness.com/noticias/absenteismo-causado-por-drogas-gera-prejuizo-anual-de-us-19-bi/>.

 

15 – Revista Cipa, matéria de 16.11.15, disponível em <http://revistacipa.com.br/alcoolismo-e-um-dos-maiores-responsaveis-por-pedidos-de-afastamento-em-sao-paulo/>

 

16 – Jornal “Correio Braziliense”, edição de 26.01.15. Disponível em <http://www.em.com.br/app/noticia/economia/2015/01/21/internas_economia,609960/alcoolismo-mina-a-produtividade.shtml>

 

17 – Moraes, Edilaine; Campos, Geraldo M.; Figlie, Neliana B.; Laranjeira, Ronaldo; e Ferraz, Marcos B. – “Conceitos introdutórios da economia da saúde e o impacto social do abuso de álcool”, pesquisa da Universidade Federal Paulista de Medicina publicada na Revista de Psiquiatria Clínica, volume 28, 2006. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_artext&pid=S1516-44462000400014>

 

18 – Folha de S. Paulo, editorial de 14.05.15, intitulado “O cobertor da saúde”. Também disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2015/05/1628742-editorial-o-cobertor-da-saude.shtml>.

 

19 – Jairo Bauer, artigo publicado em “O Estado de S. Paulo”, edição de 25.10.15, caderno “Metrópole”.

 

 

20 – Laranjeira, Ronaldo; Nicastri, Sérgio; Jerônimo, Claudio; e Marques, Ana Cecília em “Consenso sobre a Síndrome de Abstinência do Álcool (SAA) e o seu tratamento” (publicado na Revista Brasileira de Psiquiatria 22 – ano 2000).

 

21 – Sebastian Reiche, artigo publicado no “Valor Econômico”, edição de 25.04.15.

 

22 – http://www.valor.com.br/financas/4088728/educacao-financeira-reprovada (“Valor”, edição de 11.06.15, págs. D1 e D2, matéria de Luciana Seabra).

 

23 – Folha de S. Paulo, edições de 04.01.16 (“Prefeitura atribui atrasos à perda de arrecadação em SP, pág. B5) e de 10.03.16 (“São Paulo de braços abertos” – pág. A3).

 

24 – www.capital.sp.gov.br/portal/noticia/3749.

 

25 – Informações prestadas pela Equipe de Saúde Mental da Secretaria Municipal de Saúde da Prefeitura de São Paulo ao Movimento Vale a Pena (ONG que estuda o tema da dependência química), em 16.09.15.

 

26 – http://revistaepoca.globo.com/Brasil/noticia/2013/05/sao-paulo-vai-adotar-bolsa-crack-para-dependentes-quimicos.html

 

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