Segredos de alcova

16/agosto/2017 - 6:46 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Lembro de meu avô, na minha infância, ter usado algumas vezes a expressão “segredos de alcova”. São confidências, histórias suspeitas, fofocas particulares, diálogos cúmplices, coisas para compartilhar com seu parceiro ou parceira (naquela época, todos os casais eram hehehéteros) na privacidade dos lençóis.

Às vezes, quando pegava meus avós conversando e a curiosidade infantil se atrevia a perguntar qual era o assunto, meu avô – se o tema era impróprio ou de difícil compreensão para minha tenra idade – respondia de forma teatral, empinando o queixo e me olhando de soslaio: “são segredos de alcova”. Era a deixa para eu voltar para meus carrinhos ou observar as formigas no quintal.

A alcova, aliás, era um lugar inviolável. Certa vez, minha avó recusou-se a ver um filme porque ele tinha “cenas de alcova”. E não chegava nem perto do que vemos hoje nas sessões da tarde, era um filme histórico cuja “cena de alcova” se resumia a

um casal trocando afagos em roupas íntimas. Sim, aquelas roupas de baixo que não revelavam mais do que um braço ou um pescoço. Mas eram “cenas de alcova”, e isso não era algo apresentável para o público.

Mas tudo mudou, a intimidade faz parte de nosso cotidiano, as alcovas perderam força. As redes sociais expõem muito mais do que imaginamos um dia e o mundo perdeu a vergonha, especialmente o Brasil, que exibe suas partes pudendas em horário nobre sem corar meio centímetro de pele. Não. Não nós, os simples mortais brasileiros, mas nossos “representantes”, em todas as esferas do poder.

Dia desses, um juiz de Mato Grosso, ao ser questionado sobre o recebimento de mais de meio milhão de reais no mês de julho, foi taxativo: “Eu não tô nem aí!”. Resposta desavergonhada para um salário desavergonhado.

Não é só isso, claro. Os magistrados das mais altas cortes do país tomam decisões que flertam perigosamente com o descaso, ignorando a Lei e aquela que deveria ser soberana: a vontade popular.

Nossos parlamentares também não têm vergonha. Isso já sabemos. Mas o negócio está ficando cada vez mais explícito, não há mais constrangimento. Vendem-se, oferecem-se e pronunciam-se como se estivessem fazendo cena para um espelho, na intimidade de suas… alcovas. Apresentam para o público – seus eleitores, diga-se – propostas de enrubescer o mais vadio e safado dos seres humanos. Bradam aos quatro ventos a reforma escatológica do “distritão” com um financiamento público de R$ 3,5 bilhões, tendo a desfaçatez como característica. Aliás, para a maioria, isso não é mais do que uma notinha ao pé da biografia, já que boa parte do parlamento consta nas listas ofertadas por delatores sobre o vaivém das propinas. Mas deputados e senadores permanecem impassíveis, como se seus nomes estivessem na lista vip de uma festa.

Agora, festa mesmo está acontecendo nos fins de noite do Jaburu. Se não bastasse o cara de pau do Joesley gravar suas intimidades com o presidente durante um encontro furtivo às portas da madrugada, o entra e sai do palácio virou notícia certa. A última e mais polêmica foi a visita de Raquel Dodge, futura procuradora-geral da União. Não. Não temos nada com a vida íntima de Temer e Dodge. Eles são adultos, vacinados e não devem nada à Justiça.

Ah, não! Parece que o presidente tem algumas pedras judiciárias no meio do caminho. E, se não me engano, será Raquel Dodge a responsável pelas investigações depois da saída de Rodrigo Janot.

Sabe, às vezes eu sinto uma saudade das alcovas, quando certas coisas só se faziam entre quatro paredes. E eu não estou falando de sexo.

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