Temer e o amor sincero

29/junho/2017 - 11:23 am

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Paulo Leme tem 46 anos e é advogado, graduado pela USP. Dependente químico em abstinência há mais de 20 anos, escreveu, junto com seu pai, o livro “A Doença do Alcoolismo” e é fundador do Movimento Vale a Pena, ONG que tem por objetivo divulgar informações a respeito da dependência química.

Eduardo Cunha, todos sabemos, está muito longe de ser um santo.

A considerar o que se diz dele por aí, é bem possível que, em termos de bandidagem simples e roubalheira complexa, o homem tenha um lugar de destaque no panteão da República que, entre outros heróis, produziu Ademar de Barros, Paulo Maluf, Hildebrando Pascoal (o nosso querido deputado Jason da Sexta-Feira 13), José Sarney, Fernando Collor, Sérgio Cabral, Antonio Palocci e José Dirceu.

É por isso que tenho muitas dificuldades para entender o que o nosso admirado Presidente Temer quer dizer quando, nesses pronunciamentos que ele costuma fazer ao povo, tenta explicar a hermenêutica da obra cultural que já deixou como legado para a posteridade, intitulada “Diálogos com Joesley Batista”. Explico.

Ao ser referir, naquela obra, ao nosso querido Eduardo Cunha, Joesley fala algo como:

– Eu tô de bem com o Eduardo…

E o Presidente observa:

– Tem que manter isso, viu?

Para o bandido Joesley (um ícone das artes cênicas, que, por muitos anos, se fez passar por bonzinho perante a maior parte de nossos inocentes políticos), o “isso” seria um mensalinho a ser pago ao amigo Eduardo Cunha.

Porém, para o nosso prestigiado Presidente Michel, o “isso” era exatamente o oposto: era a amizade pura e sincera.

Pessoa do bem, Michel dava boas recomendações ao não menos bondoso Joesley: vamos todos viver em paz, alegres na celebração da amizade. Espiritualidade pura.

Dando-se de barato que essa versão seja 1000% verdadeira (e que, portanto, o nosso estimado Presidente seja homem casto e puro), pergunto: Presidente Michel, por que diabos seria bom para qualquer vivente deste miserável planeta ser amigo de alguém como o Eduardo Cunha?

Vossa Excelência, pelo jeito, acha bacana que alguém vá, por exemplo, assistir a um jogo de futebol junto com o Cunha, o visite nos finais de semana para um joguinho de baralho ou, depois de tomar uns drinques, deixe ele repousar a cabeça no ombro enquanto chora de saudade de uma antiga namorada da escola. Afinal de contas, amigo é pra essas coisas.

Presidente Michel, perdoe-me a franqueza, mas, em se tratando do Eduardo Cunha (que, aliás, no dia dessa conversa esquisita, já estava guardado no xilindró), menos do que amizade, o que o Senhor, do cume de vossa santidade, pede mesmo é amor – amor absoluto e incondicional, como é o amor sincero.

Um tal de Nelson Rodrigues costumava dizer que o dinheiro compra tudo – até o amor sincero.

Vossa Excelência, no entanto, é homem santo, não ousarei pensar mal do Senhor nem de seus conselhos. Muito menos de seus amigos.

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