Um país para Marina

10/outubro/2017 - 5:57 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Uns anos atrás, numa roda de amigos, disse que Marina Silva nunca seria presidente por ser mulher, negra, e de um estado insignificante. O comentário me rendeu críticas severas e até a pecha de machista. Mas é melhor ter amigos que não concordam com ele do que amigos aplaudindo com festa tal vaticínio.

E antes que novamente eu seja mal interpretado, vamos à explicação. Marina, num plano político, contando apenas o gênero, a raça e seu estado natal, tem aí três características recorrentemente rejeitadas pelo eleitor brasileiro. Aqui não se vota em mulher, não se vota em negro e, no plano presidencial, não se vota em nomes de estados periféricos, ainda menos da região norte, que nunca emplacou um presidente.

Se levarmos em conta que Marina é ex-seringueira, foi alfabetizada apenas aos 16 anos e é evangélica, completamos o caldo, e o oferecemos na aparência frágil e na compleição franzina da ex-senadora.

Basta ver a lista de presidentes que o Brasil produziu, eleitos, empossados, ditadores, golpistas, para entender do que estou falando: são todos homens, brancos, quase sempre ricos. Com a honrosa exceção de Dilma Rousseff, alçada ao poder por obra e graça de seu antecessor, Lula, branco, velho e, agora, dizem, rico. Marina Silva é o oposto da cartilha que seguimos.

Temer mesmo sem ter levado nenhum voto é o padrão clássico do presidente: homem, branco, velho e rico

Esse nosso eleitorado sexista vem há mais de século repetindo a mesma fórmula. E isso vale para todos os estados da federação e municípios. Colocamos no poder o estereótipo do coronel, do doutor, do homem de bem. Esquecemos ano após ano que nossas raízes e nosso espelho comportam muito mais diversidade do que supõe a nossa vã misoginia.

Mas os últimos anos vêm corroborar o ponto onde quero chegar. Esse conglomerado de homens brancos, ricos e prioritariamente velhos, usou e abusou da confiança nele depositada. À medida que as denúncias, delações e descobertas vão se acumulando, percebemos a magnitude de nossos erros. Teimamos de maneira contumaz em eleger os facínoras. Entregamos nossa rica nação àqueles que iriam usurpá-la. Sequer temos noção do que seríamos se tivéssemos políticos minimamente interessados no bem-estar social e econômico, e não em seu próprio enriquecimento.

Para a próxima eleição presidencial a maioria dos nomes já está no tabuleiro. E é claro que o surrado clichê é o que se mostra. De todos os candidatos já conscientes do jogo, Marina Silva é a única que destoa, como sempre.

Dessa vez, no entanto, ela, que foi a terceira colocada nas duas últimas eleições, tem a seu favor o fato de que todos os seus maiores adversários naqueles pleitos estão sendo investigados por desvios de montantes ainda desconhecidos do erário. Ela, não!

Marina Silva: talvez seja a hora de apostar no diferente

Além disso, o eleito em 2018 substituirá o presidente mais impopular que o país já teve: Temer, a personificação mais bem-acabada do padrão homem, branco, velho, rico.

 

E tem mais: Marina tem uma história de vida exemplar. Saiu do seringal, se alfabetizou, estudou até se tornar senadora e uma referência em meio ambiente para o mundo.

Marina Silva pode não ser nem o novo nem o velho, nem esquerda nem direita, pode ser apenas diferente. E talvez seja a hora de experimentar o diferente. 

 

Talvez seja o momento de uma mulher, negra e amazônida.

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