“Xiii, queimou de novo!”

9/novembro/2017 - 6:13 pm

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Edson Nascimento, 48, é jornalista. Nasceu em Belém do Pará, mas mudou-se para São Paulo quase trinta anos atrás. Entre 2000 e 2015 dirigiu o Projeto Pão Nosso, Ong que atendeu mais de duas mil crianças e jovens, oferecendo educação, profissionalização e renda. Em algum momento da vida colocou na cabeça que ia transformar o mundo.

Perdão pelo spoiler, leitor/a, não foi minha intenção ser o cara que entrega o fim do filme ou a próxima reviravolta da sua série preferida, mas a frase que dá título a este artigo é o desfecho de uma piada curta e clássica, repetida infinitas vezes em meus ouvidos e replicada outras tantas por mim, mesmo que por um curto período de tempo, até meados de minha juventude.

Fui criado pelos meus avós paternos, nascidos no início do século passado. Meu avô era branco, mas tinha a cara tão redonda, as bochechas tão proeminentes e o nariz tão largo que é possível afirmar que não nasceu negro por uma falta pontual de pigmento na linha de produção. Minha avó era quase branca, filha de uma portuguesa com um típico brasileiro amazônico. Meu avô era de uma cidadezinha no coração da floresta e nunca soube quem eram seus pais. Foi criado por um comerciante, o dono da mercearia do lugar. E, claro, como é comum nessas relações, “pagava” comida, roupas, educação e casa trabalhando.

Meus avós eram da primeira geração pós-abolição. Aos olhos de hoje seriam considerados racistas, capazes de proferir frases como: “um preto de alma branca” ou “serviço de preto”. No entanto, jamais os vi ofendendo ou discriminando alguém por conta de raça. Isso era mais provável no campo religioso, pois eram católicos fervorosos. As frases de cunho racista eram ditas – raramente – no ambiente particular e resguardado do lar. Já minha bisavó, a portuguesa, era capaz de elucidar qualquer crime pela cor da pele.

Pois meu pai não resolveu se casar com a filha de um negro? Por acaso, minha mãe!

Nem imagino a reação de minha bisavó quando conheceu os futuros parentes.

O fato é que, por circunstâncias peculiares, acabei passando a infância com meus avós e adolescência e juventude com meus pais, cuja casa vivia sempre repleta, cheia de vida, de diversidade, raças e gêneros misturados. Todo fim de semana era uma festa. Na mesa da cozinha, meu tio, negro, contando “piada de preto”; meu pai soltando as “piadas de bicha” para todas as bichas, que, por sua vez, não perdoavam os “bofes” nem os tios. E todos se divertiam, num ambiente quase sempre harmonioso. Lembro, por exemplo, de uma briga por causa de um Flamengo X Santos, ou de umas duas ou três brigas de casal, uma delas, inclusive, entre duas mulheres, mas não guardo na memória qualquer entrevero por conta de raça ou gênero. Foi esse ambiente de diversidade e alegria que levei para minha vida.

Não vou questionar se os comentários de William Waack são a manifestação do mais odioso racismo ou se são uma ironia à substituição do negro Obama pelo branco e racista Trump. Só posso dizer ao caro colega que, naquela cozinha, na distante Belém do Pará, aprendi que o mundo é muito mais colorido, e que foi ali, há quase trinta anos, que fiz pela última vez a pergunta: “você sabe o que Deus disse quando nasceu o segundo preto?”

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